RAUL BOPP
(1898 – 1994)
“UM DIA…”
Um dia
Eu hei de morar nas terras do Sem Fim
Vou andando caminhando
Me misturo no ventre do mato mordendo raízes
Depois
Faço puçanga de flor de tajá de lagoa
E mando chamar a Cobra Norato
– Quero contar-te uma história
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar
A noite chega mansinho
Estrelas conversam em voz baixa
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
E estrangulo a Cobra.
Agora sim
Me enfio nessa pele de seda elástica
E saio a correr mundo
Vou visitar a rainha Luzia
Quero me casar com sua filha
– Então você tem que apagar os olhos primeiro
O sono escorregou nas pálpebras pesadas
Um chão de lama rouba a força dos meus passos
(de “Cobra Norato”)
Poeta e diplomata. Escreveu poemas inspirados na vida dos negros brasileiros, mas a sua obra principal é “Cobra Norato” (1931), um poema baseado na mitologia amazónica, para muitos o poema-chave do movimento antropofágico do Modernismo. A sua poesia foi depois reunida em “Poesia Completa” (1998).

