HAROLDO DE CAMPOS
( 1929 – 2003 )
A MÁQUINA DO MUNDO REPENSADA (I)
(fragmento)
quisera como dante em via estreita
extraviar-me no meio da floresta
entre a gaia pantera e a loba à espreita
(antes onça pintada aquela e esta
de pupilas amarelas)
neste sertão – mais árduo que floresta
ao trato – de veredas como se elas
se entreverando em nós de labirinto
desatinassem – feras sentinelas
barrando-me: hybris-leoa e o variopinto
animal de gaiato pêlo e a escura
loba – um era lascívia e a outra (tinto
de sangue o olho) cupidez impura:
dante com trinta e cinco eu com setenta –
o sacro magno poeta de paúra
transido e eu nesse quase – (que a tormenta
da dúvida angustia ) – terço acidioso
milênio a me esfingir: que me alimenta
a mesma –de saturno o acrimonioso
descendendo – estrela ázimo-esverdeada
a ácida: lume baço em céu nuvioso
… … … … … … … … … … … …
(de “A Máquina do Mundo Repensada)
Poeta, crítico e tradutor. Com Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Décio Pignatari foi um dos fundadores da Poesia concreta, movimento de vanguarda que recuperou elementos das artes visuais. Foi um dos mais conceituados teóricos da tradução literária. Da sua obra poética recordamos “O Auto do Possesso” (1950), “Servidão de Passagem” (1962), “Xadrez de Estrelas” (1976), “Galáxias” (1984), “Finismundo: a última Viagem” (1990), “A Máquina do Mundo Repensada” (2000).

