POESIA AO AMANHECER – 443 – por Manuel Simões

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                        HAROLDO DE CAMPOS

                                               ( 1929 – 2003 )

            A MÁQUINA DO MUNDO REPENSADA (I)

            (fragmento)

               quisera como dante em via estreita

            extraviar-me no meio da floresta

            entre a gaia pantera e a loba à espreita

 

            (antes onça pintada aquela e esta

            de pupilas amarelas)

            neste sertão – mais árduo que floresta

 

            ao trato – de veredas como se elas

            se entreverando em nós de labirinto

            desatinassem – feras sentinelas

            barrando-me: hybris-leoa e o variopinto

            animal de gaiato pêlo e a escura

            loba – um era lascívia e a outra (tinto

 

            de sangue o olho) cupidez impura:

            dante com trinta e cinco eu com setenta –

            o sacro magno poeta de paúra

            transido e eu nesse quase – (que a tormenta

            da dúvida angustia ) – terço acidioso

            milênio a me esfingir: que me alimenta

 

            a mesma –de saturno o acrimonioso

            descendendo – estrela ázimo-esverdeada

            a ácida: lume baço em céu nuvioso

 

            … … … … … … … … … … … …

            (de “A Máquina do Mundo Repensada)

Poeta, crítico e tradutor. Com Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Décio Pignatari foi um dos fundadores da Poesia concreta, movimento de vanguarda que recuperou elementos das artes visuais. Foi um dos mais conceituados teóricos da tradução literária. Da sua obra poética recordamos “O Auto do Possesso” (1950), “Servidão de Passagem” (1962), “Xadrez de Estrelas” (1976), “Galáxias” (1984), “Finismundo: a última Viagem” (1990), “A Máquina do Mundo Repensada” (2000).

 

 

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