2. FORÇAS DE DIVERGÊNCIA – SERÁ QUE A ONDA DE DESIGUALDADE SE ESTÁ A TORNAR ENDÉMICA AO CAPITALISMO? Por JOHN CASSIDY

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

Falareconomia1

2.FORÇAS DE DIVERGÊNCIA

Será que a onda de desigualdade se está a tornar endémica ao capitalismo?

JOHN CASSIDYNew Yorker, 31 de Março de 2014.

Parte III

(CONTINUAÇÃO)

Se a propriedade  do capital fosse  distribuída igualmente, nada disto seria relevante.  Todos nós partilharíamos igualmente o aumento dos  lucros, dos  dividendos e das rendas . Mas no Estados Unidos em 2010, por exemplo, os dez por cento  mais ricos dos agregados familiares possuíram cerca de  setenta por cento da riqueza de todo o país (um bom substituto para o “capital “), e os um por cento mais ricos da escala dos rendimentos dos  agregados familiares possuíam  trinta e cinco por cento de toda a riqueza. Em contraste com estes valores,  a metade dos agregados familiares com menos rendimentos possuíam  apenas cinco por cento da riqueza global. Quando o rendimento gerado pelo capital cresce  rapidamente, as  famílias mais ricas  beneficiam desse aumento de forma  desproporcionada . Desde 2009, os lucros das grandes empresas, os pagamentos de dividendos  e o mercado de acções  aumentaram  desmesuradamente  mas os salários evoluíram muito mal. Em consequência, e de acordo com os cálculos feitos por Piketty e por Sáez, quase todo o crescimento do  rendimento  na economia entre 2010 e 2012- cerca de  noventa e cinco por cento desse crescimento – foi apropriado pelos  um por cento da escala de rendimentos.

É uma imagem bastante chocante. Piketty chama a esta situação e a esta tendência,   a tendência para a desigualdade aumentar durante os períodos em que a  taxa de rentabilidade sobre o capital é maior do que taxa de crescimento da economia,  “a contradição central do capitalismo”. Claro, a lógica também pode actuar em  sentido inverso. Se a taxa de crescimento for superior à  taxa de rentabilidade do capital, ordenados e salários crescerão mais rapidamente do que os rendimentos de capitais, e desigualdade irá  cair. Foi isso que aconteceu em grande parte do século XX, afirma Piketty. O problema, argumenta Piketty, é que este estado de coisas é improvável ser mantido. “Uma combinação de circunstâncias… criou uma situação historicamente sem precedentes, que durou durante grande parte do século que durou quase   um século,” afirma ele. “Todos os sinais apontam, no entanto, que isto está a acabar.”

Como é que isto é convincente? A análise de referência do desenvolvimento económico-frequentemente atribuída a Simon Kuznets, um economista de Harvard que a popularizasse durante a década de sessenta – é a de que a desigualdade na repartição aumenta durante as fases iniciais da industrialização mas que,  por outro lado, esta desigualdade  cai de forma sustentada  com os rendimentos a convergirem e as condições gerais de  vida a melhorarem para todos . Piketty estará certamente correcto ao  sublinhar que não havia nada de natural ou de inevitável sobre a compressão do rendimento  que ocorreu em meados do século XX. Isto é  o produto do conflito mundial e das  lutas  políticas internas. Na  Europa, as duas guerras mundiais e as políticas fiscais progressivas que eram necessárias para as financiar fizeram um enorme dano nas velhas e às grandes fortunas: muitas pessoas  ricas, depois de terem  pago as suas taxas sobre os rendimentos assim como os seus  impostos sucessórios, não tinham bastante dinheiro para refazer a sua fortuna . Durante o período do pós-guerra, a inflação corroeu as suas poupanças. Entretanto,  as leis favoráveis  ao trabalho  permitiram  aos trabalhadores negociarem  salários mais altos, o que levou a que tenha aumentado a proporção do  rendimento recebido pelo  trabalho. E a tarefa da reconstrução depois da destruição dos tempo de guerra levou à  expansão rápida do PIB.  Isto ajudou a manter a taxa de crescimento acima da taxa de rentabilidade do capital, reduzindo as forças de  divergência.

No Estados Unidos, a história foi  menos dramática mas largamente  similar. A Grande Depressão pela desvalorização dos activos eliminou uma grande parte da  riqueza dinástica e conduziu, igualmente, a uma revolução política. Durante os anos 30-40, lembra-nos Piketty, Roosevelt  aumentou a taxa máxima  de tributação  do rendimento  para mais de  noventa por cento e o imposto sobre as grandes propriedades para mais de setenta por cento. Os salários mínimos foram determinados pelo  governo federal para  muitas indústrias  assim como se  incentivou  o crescimento dos sindicatos. Nas décadas a seguir à guerra , gastou-se fortemente em infra-estruturas, tal como as auto-estradas nacionais, que impulsionaram o crescimento do PIB.  Temendo incentivar a indignação pública, as grandes empresas mantiveram sob controlo o pagamento  aos seus altos quadros . A desigualdade começou somente a aumentar outra vez quando Margaret Thatcher e Ronald Reagan conduziram uma contra-revolução conservadora que reduziu as  taxas de imposto sobre os mais  ricos, que dizimou os sindicatos  e que procurou  conter o crescimento das despesas públicas.  A política e a distribuição do rendimento são os dois lados da mesma moeda.

Piketty atira alguns tiros bem apontados aos economistas que tentam ofuscar esta realidade. “No estudo dos séculos XVIII e XIX, é possível pensar que a evolução dos preços e salários, ou dos rendimentos e da riqueza, obedece a uma lógica económica autónoma tendo pouco ou nada a ver com a lógica da política ou da cultura,” escreve Piketty. “Quando se estuda o século XX, no entanto, tal ilusão cai por terra imediatamente. Um rápido olhar sobre as curvas que descrevem a evolução da desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza ou o rácio capital/rendimento  é suficiente para mostrar que a política está  omnipresente e que as mudanças económicas e políticas estão inextricavelmente entrelaçadas  e devem ser estudadas em conjunto.”

Isso é mais do que simples retórica. Insistindo que as leis económicas tomam sempre forma  através de normas sociais, dos valores e das escolhas políticas, Piketty salvaria a sua disciplina da aridez de abstracção e recolocá-la-ia no quadro de um modelo mais rico de economia política que  foi o que as seus melhores referências como economistas   do século XIX fizeram. Certamente, é difícil não ficar impressionado pela sua  história e pelo seu assalto  metodológico  sobre os teóricos que acreditam que a economia pode ser reduzida a uma ciência pura. Mas não é sua visão do futuro demasiado  pessimista? A curva de Kuznets, a sua descrição da desigualdade ao  longo do tempo, é uma curva em forma de sino: a desigualdade cresce, atinge um valor de pico  e depois decresce. Piketty quer substituí-la por uma curva em U. Estamos realmente condenados a retornar para a estrutura social de “Mansfield Park” e do  “Le Père Goriot”?

Uma possibilidade mais optimista é que a taxa de crescimento do PIB  se aproximará, ou mesmo ultrapassará a taxa de rentabilidade do capital. Se  assim acontece, as próximas décadas poderiam ficarem mais próximas do que aconteceu em meados do século XX do que do que se verificou no século XIX. Para estarmos mais seguros disso mesmo com muitos  países avançados envolvidos em situação de grande e difícil  recessão , não augura  nada de bom quando à possibilidade de um longo período de elevado  crescimento. Mas as recessões  são cíclicas. A longo prazo, são a inovação e a produtividade crescente que estão na base do crescimento.  Com o desenvolvimento da  Internet, da biotecnologia, dos robôs e de  outros avanços científicos, é pelo menos concebível que o crescimento de produtividade cresça a uma taxa permanentemente mais alta e com ela crescerá igualmente  o PIB.

(continua)

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Para ler a Parte II deste trabalho de John Cassidy, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá :

http://aviagemdosargonautas.net/2014/05/16/2-forcas-de-divergencia-sera-que-a-onda-de-desigualdade-se-esta-a-tornar-endemica-ao-capitalismo-por-john-cassidy-2/

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