Já sabíamos que o chamado Corpo de Cristo que se comunga nas missas não alimenta as pessoas que o comungam sob a forma de hóstias de farinha de trigo sem fermento, tão pequenas e delgadas elas são e só se pode comungar no máximo, uma por dia, à excepção dos sacerdotes que têm de presidir a diversas missas, em diferentes localidades. O que os párocos e os bispos habitualmente não nos dizem é que a ingestão continuada de hóstias-corpo de cristo, pode agravar a saúde das pessoas portadoras de doença celíaca, e, com o tempo, pode até apressar a morte dessas pessoas. Porque a farinha de trigo utilizada no seu fabrico, tal como a que é utilizada para o fabrico do pão, é portadora de glúten, uma substância proibida às pessoas portadoras de doença celíaca. O assunto é sério, mas o Código de Direito Canónico (CDC) exige que as hóstias para as missas sejam fabricadas apenas com farinha de trigo e água, sem a junção de quaisquer outros ingredientes. E só com uma autorização especial do papa de Roma, é possível o fabrico de hóstias com farinha de trigo sem glúten, bem mais difícil de produzir. E também bastante mais cara.
Curiosamente, a empresa católica que está autorizada a fabricar hóstias sem glúten, é portuguesa e situa-se em Braga. Dá pelo nome de Instituto Monsenhor Airosa e tem oito funcionárias. Concretamente, as hóstias sem glúten são lá fabricadas e exportadas para todo o mundo. O custo do fabrico sai tão caro, comparativamente às hóstias com glúten, que a empresa nem sequer fixa um preço. Deixa ao critério de quem as encomenda, para uso exclusivo de pessoas portadoras de doença celíaca e que, mesmo assim, não dispensam o corpo de cristo de farinha de trigo. Entretanto, à falta de hóstias-corpo de cristo sem gluten, as pessoas portadoras dessa doença são autorizadas pelo CDC a comungar o vinho-sangue de cristo. Só que às crianças, ninguém vai dar-lhes vinho a beber… Obviamente! E a solução é recorrer às hóstias sem glúten.
A empresa bracarense fabrica em média 150 mil hóstias com glúten por dia e é com o fabrico destas e das outras hóstias sem glúten que garante a manutenção do Instituto. A indústria está hoje em franco declínio, uma vez que as missas têm cada vez menos frequentadores. Consequentemente, menos consumidores de hóstias com ou sem glúten. Por outro lado, as crianças em idade de catequese, sem dúvida, a grande clientela das missas de domingo, são também cada vez menos nas missas, não só porque são cada menos os pais que ainda alinham nesse tipo de educação católica para os filhos, como são cada vez menos as crianças nascidas, cada ano que passa. Sobram depois as pessoas de idade que ainda se mantêm fiéis às missas de domingo. Mesmo assim, este é manifestamente um negócio eclesiástico em vias de extinção. O grande Mercado até o corpo de cristo com ou sem glúten está a fazer desaparecer. As novas gerações não descortinam neste tipo de culto/comida qualquer valor para as suas vidas. E deixam para lá.
Para cúmulo, ao saber-se, agora, que o corpo de cristo com glúten pode, até, apressar a morte das pessoas portadoras de doença celíaca, serão certamente ainda menos os que aceitam continuar a comungar hóstias-corpo de cristo que não só não alimentam, como ainda podem agravar a saúde de quem tem de evitar ingerir produtos com glúten.
Fossem as Igrejas prosseguidoras de Jesus, mai-lo seu Projecto político maiêutico, e, em lugar de insistirem no corpo de cristo de S. Paulo, que ninguém faz ideia do que seja, comungariam Jesus, ele próprio, o Pão da Palavra de Deus Abba-Mãe de todos os povos por igual, que nunca ninguém viu, e que é o único Pão-palavra que desperta e estimula as populações que o comem, a abrir-se à prática da expropriação e da partilha dos bens da terra, para que estes sejam verdadeiramente de todos segundo as necessidades de cada qual. Ganharia corpo, então, um novo tipo de sociedade, sem missas, sem templos, sem sacerdotes, apenas com múltiplas mesas compartilhadas, numa grande Comensalidade sem Mercado e sem venenos nas nossas dietas alimentares. Coisa que o cristianismo é intrinsecamente incapaz de gerar, porque ele próprio é o pai do Mercado que está aí cada vez mais apostado em fazer dos seres humanos coisas, mercadorias, consumidores compulsivos de alimentos que nos adoecem e apressam a morte, como fazem as hóstias-corpo de cristo com ou sem glúten.