Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
É necessário bombardear Moscovo
Revista Le Causeur, 7 de Maio de 2014
Il faut bombarder Moscou!
MENTIRAS e grandes títulos: as reportagens do Le Monde e do Libération principalmente (Le Figaro é um pouco mais objectivo) sobre a Ucrânia lembram-me, de forma bem precisa, as reportagens sobre a guerra na antiga Jugoslávia, na década de 1990. De um lado os bons, do outro os maus e uma estranha propensão para colocar no campo dos bons, tapando o nariz, os antigos e os novos nazis contra aqueles que aí resistiam.
Um exemplo de tratamento selectivo? O notável silêncio sobre o massacre “dos pró‑russos” na sede dos sindicatos de Odessa ou a forma de apresentar a repressão militar de Kiev contra a sua própria população como a resistência desesperada de um Estado democrático para impedir os facciosos de tomarem o poder. Imaginemos o inverso. Foram “pró-europeus” que foram queimados vivos em Odessa e são as tropas “pró-russas” que retomam com armas pesadas as cidades “pró-europeias”. Aí, seria a grande semana da indignação com trémulos adeptos e seguidores do pensamento em cada canto de página e com um apelo à formação de brigadas internacionais.
Uma pequena diferença em relação à ex-Jugoslávia mesmo assim, os editorialistas de mentalidade guerreira são ligeiramente mais cuidadosos nos seus propósitos. Sente-se a raiva impotente, um belicismo recalcado. É verdadeiro que apelar ao bombardeamento dos sérvios da Bósnia Herzegovina ou de Belgrado, é mesmo assim ligeiramente menos arriscado do que apelar ao bombardeamento de Moscovo. Contentam-se então em invocar “sanções económicas”.
Mas isto é de qualquer modo bastante irónico, em todo este horror, é que de momento, se há sanções económicas, são sobretudo aquelas o que os governos austeritários da União Europeia aplicam contra os seus próprios povos e que tudo isso se vai pagar muito caro e muito rapidamente, no dia 25 de Maio. No mesmo dia em que se irá realizar a eleição presidencial na Ucrânia porque, sabe-se muito bem, que a História tem sempre um sentido de humor muito especial.
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http://www.causeur.fr/ukraine-russie-presse-27433.html
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Face às sanções americanas, soluções russas
À sanctions américaines, solutions russes
Obrigado, a quem? Obrigado a Kerry.
Revista Le Causeur, 8 de Maio de 2014
Nada mal, de facto! A mensagem enviada por Vladimir Putin era clara: aos jornalistas que o interrogavam sobre as sanções americano-europeias aquando de uma deslocação a Minsk em 29 de Abril, o presidente russo respondera desdenhosamente que o seu “governo (…) já havia proposto medidas de represálias.” mas que não pensa ter necessidade de as aplicar … Depois, parece ter mudado de opinião.
Assim, segunda-feira 5 de Maio, Vladimir Putin assinou uma proposta de lei que institui um sistema de pagamento nacional. O texto, que entrará em vigor a 1 de Julho, tem por objectivo centralizar todas as transacções que têm lugar sobre o território nacional. As trocas serão efectuadas imperativamente em rublos e todos os sistemas de pagamento estrangeiros tais como VISA ou Mastercard deverão pagar ao banco central russo uma comissão trimestral que equivale à 25% do seu volume de negócios, ou seja a integralidade da margem destas sociedades na Rússia… As sanções americanas determinadas em Abril finalmente teriam produzido o seu pequeno efeito, se não sobre a economia, pelo menos sobre a opinião pública.
Os Estados Unidos bloquearam nomeadamente as transferências de dinheiro que transitam pelo seu país e com destino de três bancos russos: Rússia Sobinbank, SMP bank, e Investkapitalbank. Os seus accionistas que figuram sobre a lista negra estabelecida pelos Estados Unidos, os cartões dos bancos citados ficaram inutilizáveis sobre a terra do tio Sam. Depois, os grupos Visa e Mastercard enviaram uma carta aos seus clientes russos em que os avisavam de que os seus serviços corriam o risco de serem bloqueados. E isso não faltou. Esta medida atinge um grande número de cidadãos russos e excede definitivamente o primeiro círculo de Putin. Mais de 95% dos 217milhões de cartas bancárias fabricados na Rússia dependem dos centros de pagamento Visa e Mastercard.
A nova lei votada permitirá, à priori, desenvolver uma espécie “de Russian Express” que se irá impor no mercado interno, levado por um patriotismo económico e um preço competitivo. Mas será interessante ver até que fronteiras a rede financeira russa se desenvolverá e até onde o maná russo gozará da sua independência.
Sobretudo, por detrás desta medida de retorsão, adivinham-se os contornos de uma disposição que se inscreve numa política de longo prazo: controlar melhor os fluxos monetários e, porque não, tornar mais difícil a fuga dos capitais que afecta a economia russa.
Finalmente, Vladimir Putin disse talvez a verdade : o governo não tem muito a fazer com as sanções americanas que atingem realmente apenas os expatriados. Mas não se esquecerá de agradecer a Kerry por lhe ter fornecido o perfeito pretexto para uma bem maior concentração do poder. O chefe do Kremlin, fino estratega, soube virar a situação e virá-la a seu favor. Soube recuperar a carta de crédito como objecto de representação nacional. Porque, como o recorda Kevin Limonier, investigador no Instituto Francês de Geopolítica, “coisas e palavras são mobilizadas para pôr em marcha a soberania da Rússia”
*Photo : Sergei Karpukhin/AP/SIPA. AP21563930_000020.
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http://www.causeur.fr/poutine-kerry-russie-ukraine-27458.html



