EDITORIAL – Uma estatística e duas citações

logo editorialFoi Mark Twain quem disse: «os factos são teimosos, mas as estatísticas são flexíveis». Uma recente estatística da Pordata, mostra uma fotografia de família dos 28 estados da União Europeia em que Portugal não fica bem. Por exemplo, somos o país em que há mais pessoas empregadas sem terem concluído o ensino secundário. Ocupamos a última posição quanto ao número médio de filhos por mulher. Eram 1,28 em 2012, contra 2,01 em França. São também os portugueses que apresentam mais despesas com a saúde.

 

Naturalmente que estes índices negativos têm, na sua maioria, raízes no passado. Uma comparação similar feita há cinquenta anos daria índices mais deprimentes. Como diz José Tavares, economista e professor da Nova School of Business and Economics, estes resultados derivam «da proximidade que Portugal foi ganhando em relação aos “países mais ricos”, ao longo do processo de integração europeia. A possibilidade de emigrar é um reflexo dessa proximidade, assim como o facto de termos “taxas de fertilidade assustadoramente baixas e uma população envelhecida, como os países mais ricos”, considera o professor. Os indicadores positivos são por exemplo a diminuição das desigualdades salariais, embora continuemos a ter a sexta maior diferença entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres. O risco de pobreza dos portugueses está ainda acima da média europeia: 18 em 100 pessoas vivem em risco de pobreza, contra 22 na Grécia e 10 na República Checa. Portugal consegue também estar numa posição melhor que a média europeia quando se fala das pessoas que não conseguem assegurar o pagamento de despesas inesperadas. É esse o caso em que 36% dos portugueses se encontram, contra 40,2% dos europeus.

Em suma, Portugal só pode encontrar estatísticas favoráveis comparando-se consigo mesmo. Há cem anos, a percentagem de analfabetos rondava os 80%, havendo, portanto cerca de 20% de letrados. Hoje, o analfabetismo é residual e o número de pessoas com qualquer grau académico do ensino superior ronda os 20%. Uma percentagem baixa no quadro da EU, mas que apresenta uma face optimista de uma realidade dramática. Mas, como disse Robert Camp – “As estatísticas são como o biquíni: o que mostram é interessante, mas o que escondem é essencial.”

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