POESIA AO AMANHECER – 447 – por Manuel Simões

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                                   MÁRIO CHAMIE

                                            ( 1933 )

            O REI

            Era um rei

            que vinha

            com mastros e bandeiras.

            Era um rei oposto,

            desses que trazem

            a coroa

            do lado do desgosto,

            contra a força

            do seu povo.

 

            Não era um joão sem terra.

            Era um rei sorrateiro

            que pisa no reino

            e quer o terreno

            de todo o terreiro.

 

            Sem porteira

            vinha para ser dono.

            Era um rei do mando

            que desmandava

            entre o mastro e a bandeira

            do alto do seu trono.

            Era um rei do mando.

            Era um rei do engano.

 

            Pôs o espanto

            no rosto do seu povo

            e o desgosto

            no lado oposto do seu mando.

            Era um rei deposto.

            (de “A Quinta Parede”)

Afirmou-se como teórico do grupo da poesia “praxis”, que, contrariamente ao Concretismo, se opõe a todos os movimentos literários a partir do Modernismo, utilizando a sua técnica de composição para denunciar aspectos sociais. O manifesto inaugural do movimento publica-se em “Lavra lavra” (1962). Seguem-se, entre outros, os livros “Indústria” (1967), “Objecto Selvagem” (1977) e “A Quinta Parede” (1986).

 

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