FORUM DA ARGOS – O Acordo Ortográfico e Angola

04

Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos.

 O Jornal de Angola é o principal diário do país, o chamado jornal de referência. Depois de noticiar a recente reunião da CPLP realizada em Lisboa e de lembrar que Angola e Moçambique ainda não ratificaram o Acordo Ortográfico, diz: A Língua Portuguesa é património de todos os povos que a falam e neste ponto estamos todos de acordo. É pertença de angolanos, portugueses, macaenses, goeses ou brasileiros. E nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante. […] O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos. Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.

Salientando o papel de intelectuais de Angola em prol da Língua Portuguesa, sobretudo na segunda metade do século XIX, o texto refere que, na continuidade desse trabalho, o veículo estruturante da cultura angolana foi o idioma – Queremos continuar esse percurso e desejamos que os outros falantes da Língua Portuguesa respeitem as nossas especificidades. Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais. Sabemos que somos falantes de uma língua que tem o Latim como matriz. Mas mesmo na origem existiu a via erudita e a via popular. Do “português tabeliónico” aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas. Intelectuais de todas as épocas cuidaram dela com o mesmo desvelo que se tratam as preciosidades. […]

Queremos a Língua Portuguesa que brota da gramática e da sua matriz latina. Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português. Neste aspecto, como em tudo na vida, os que sabem mais têm o dever sagrado de passar a sua sabedoria para os que sabem menos. Nunca descer ao seu nível. Porque é batota! Na verdade nunca estarão a esse nível e vão sempre aproveitar-se social e economicamente por saberem mais. […]

O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.

 

2 Comments

  1. Neste artigo do “Jornal de Angola” estão as razões fundamentais do repúdio que merece este Aborto Ortofágico.
    Sobre o seu conteúdo aberrante já muito foi dito. Nunca tudo, pois o incurável aleijão rastejante gerará, até ao último e estrebuchante suspiro, inumeráveis asneiras, muitas das quais nem os seus críticos intelectualmente mais dotados serão capazes de prever, tal a imensidão de tolices, engalanadas pela falsa plumagem de erudição inculta, que contém.
    Mas o fundo da questão, constituído pelo conjunto de razões que deveriam ter impedido a sua perpetração e, em vez disso, lhe guiaram a inútil e abortiva concepção, está plenamente analisado neste artigo.
    Os que, em Portugal, ainda vão abanando a cauda do monstrinho, tentando provar a sua inexistente vitalidade, quando está moribundo desde a sua amaldiçoada concepção – ainda que a agonia possa prolongar-se, em estado vegetativo, suportado pela máquina da “ignorância especializada” e do imobilismo transitoriamente triunfante que, até agora, o tem salvo do inevitável falecimento -, deveriam ler este artigo e reflectirem seriamente sobre ele, se para tal tarefa, que adivinho assaz dificultosa para semelhantes criaturas, tiverem capacidade…

Leave a Reply