A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
A atribuição do prémio Fé e Liberdade a Soares dos Santos provocou espanto e indignação em meios católicos progressistas. O galardão é outorgado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e será entregue no dia 24 de Junho, no decorrer do Forum Político do Estoril, no qual intervirão dezenas de participantes portugueses e estrangeiros. Quem é Soares dos Santos? Eliseo Alexandre Soares dos Santos, ex-presidente do grupo Jerónimo Martins, é dono de uma das maiores fortunas de Portugal.
Porquê o espanto? – repito.
Há alguns meses – talvez um ano… – a UCP acabou com uma iniciativa, suponho que uma “pós-graduação” (já não me recordo ao certo), sobre Saúde Pública, porque umas “piedosas senhoras” protestaram contra a participação, nessa acção de âmbito puramente escolar, de alguns médicos que se tinham manifestado a favor da IVG! Com o habitual desprezo dos fanáticos pela Democracia e perante a inacreditável indiferença do Ministério da Educação, os responsáveis da UCP apressaram-se a acatar as ordens do grupo de fascistóides, que se proclamam “pró-vida” (de quem? o mosquito da malária também é uma forma de vida…), mas, de facto, não movem um dedinho em favor da dignidade plena do seus semelhantes. Basta-lhes que – ai credo! – uma mulher não tenha poder de decisão sobre o seu próprio corpo e o que nele se passa e seja legalmente obrigada a parir uma criança não desejada, a quem não pode proporcionar uma vida digna, ou que repudia (p. e., por se tratar da consequência de uma violação). Desde que uma desgraçada criança nasça, tão piedosas criaturas vão-lhe dando caritativamente umas sopinhas, umas roupinhas cedidas por quem já não precisa delas, muito contentes porque quantos mais miseráveis nascem para ser objecto da sua “santa ajuda” mais próximas ficam de “ganhar o céu”… Esquecem-se é de aplicar, efectivamente, a doutrina de um tal Jesus, de que se reclamam seguidores, a começar pela modéstia no seu modo de vida e a acabar na total aceitação de políticas que visam retirar um mínimo de dignidade a todos os seres humanos. De resto, muitas destas hipócritas criaturas até colaboram na elaboração e execução dessas políticas, não se esquecendo, no entanto, de frequentar as igrejas de olhos em alvo, batendo com as mãos nos peitos áridos e esperando que o deus em que dizem acreditar lhes perdoe os pecados contra o seu próximo, que praticam até quando fingem ajudá-lo.
Foi à vontade desta gente, que tenta impor, ditatorialmente, os seus princípios religiosos à generalidade da população, através de leis necessariamente anticonstitucionais (o Estado de Direito não pode submeter-se a qualquer religião), que uma receosa e trémula administração da UCP acarneiradamente se submeteu.
A quem poderia a UCP, internacionalmente tão bem cotada na formatação de gestores e economistas devotos do neo-liberalismo e que até já tem cursos só em inglês – o que tem o requintado mérito de produzir licenciados com elevadíssimos graus de incultura em, pelo menos, duas línguas… – entregar qualquer galardão, senão a uma figura tão obediente à doutrina e obra da ICAR mais tradicionalista e retrógrada? Não esqueçamos que até o João César das Neves consegue ser catedrático nesta aberração pedagógica!