CARTA DO RIO – 5 – por Rachel Gutiérrez

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Enquanto persiste a impressão de que vivemos num país adiado, pois tudo fica para depois da Copa, a “indesejada das gentes”, como a chamou Manuel Bandeira, levou no sábado, dia 21 de junho, uma grande brasileira: Rose Marie Muraro. Escritora e editora formada em Física, ativista incansável em dois movimentos – o da Teologia da Libertação e o da Emancipação das Mulheres, conferencista brilhante e carismática, Rose nasceu praticamente cega e só aos 66 anos, graças a uma arriscada cirurgia recuperou parcialmente a visão, o que lhe permitiu ver, pela primeira vez, os traços de seu belo rosto. Mas a deficiência visual jamais a impediu de viajar, de participar de seminários e colóquios nacionais e internacionais, de proferir conferências muitas vezes provocativas e polêmicas, ou de editar e escrever seus mais de quarenta livros, entre os quais, os famosos Memórias de uma mulher impossível, Seis meses em que fui homem e Por uma erótica cristã, o último tendo ocasionado sua demissão da editora Vozes por ordem do Vaticano, junto com Leonardo Boff, com quem trabalhava e com quem assinou Masculino/Feminino.

Nada, porém, a faria esmorecer: funda então a Editora Rosa dos Tempos, vinculada à Record, onde passou a acolher e publicar com especial carinho e generosidade textos de muitas mulheres. Entre esses, quero destacar o livro resultante de trabalho coletivo do Grupo Mulherando, que foi lançado na ECO 92, e teve a coordenação e o texto assinados por minha irmã, Edda Gutiérrez. Esse livro pioneiro na abordagem do tema no Brasil, intitula-se Mulher na Menopausa / declínio ou renovação? E tomo a liberdade de transcrever trechos da lúcida quarta capa que Rose fez questão de escrever:

“ O tabu mais perturbador para as mulheres é a velhice. A partir de uma certa fase da vida, quase nenhuma delas diz a idade (…) O homem mais velho é mais erótico porque é melhor provedor e a mulher madura é considerada menos desejável por seu período fértil ter acabado. (…) Este livro desmonta todos os tabus e mostra como a entrada da mulher no mundo do trabalho e o consequente desenvolvimento de potencialidades que nunca tinham aparecido (…) estão transformando a mulher madura num ser pleno e cheio de riqueza, capaz, portanto, de dar e receber amor e erotismo independentemente do estereótipo da idade.”

Rose Marie Muraro viveu 83 anos de luta e resistência. Pertenceu à equipe de Dom Helder Câmara, resistiu à ditadura militar como editora de livros que contrariavam e denunciavam o regime; afastada da Vozes pela perseguição religiosa, seu trabalho de editora da Rosa dos Tempos só se interrompeu em 2002; teve cinco filhos de um casamento que durou 23 anos; além deles, deixa doze netos. Resistiu a um câncer na medula óssea por dez anos, mas suas limitações físicas não a impediram de agir nem de atuar até o fim. Entre os muitos títulos e prêmios que recebeu, destaca-se o do Senado Federal, o Prêmio Teotônio Vilela, em comemoração aos vinte anos da anistia no Brasil.

Este é um tributo e uma celebração de uma vida exemplar.

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