AS CRIANÇAS SÃO EXCELENTES A DIZER “ESTA ESCOLA NÃO É PARA MIM” por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Verdade. Crise. Medo. Capacidade de luta. Desempenho profissional. Gestão dos Mega agrupamentos. Constantes circulares. Grelhas para preencher, já para amanhã. Indisciplina na escola. Violência na escola.

Verdade, que verdade? A da Escola ou a do Ministério? Qual a origem ou a consequência da verdade?

Diz-me a experiência que a verdade da realidade sempre entrou pelos portões das escolas, senta-se, quantas vezes, de forma rebelde, nas cadeiras da sala de aula, brinca e bate no recreio, faz-se ouvir nas reuniões de avaliação dos alunos e dos conselhos disciplinares, enche pautas com notas negativas, enche turmas com alunos retidos, dá origem a percursos alternativos …

A verdade da realidade preenche boletins para o subsídio da Acção Social Escolar (ASE), preenche fichas de sinalização para o SPO, para a CPCJ, alerta para o SOS Criança…

A crise desestabiliza as escolas, ou seja os agentes educativos, os alunos e os pais. A crise instalou-se em quase todas as casas.

Professores e pais com problemas de desemprego, com a possibilidade de ficar sem casa, com imensas dificuldades económicas circulam pela escola como se esta fosse o único reduto de algum sucesso.

Mas a verdade da realidade social continua a fazer dos professores e das escolas motores de mudança para o bem- estar de todos no conhecimento, na qualidade de vida.

Os professores ultrapassam-se a si mesmos para conseguir algum apoio para os alunos com dificuldades várias, incluindo os alunos com necessidades educativas especiais.

Os alunos não conseguem interiorizar que não haja ninguém que os ajude. Onde está o psicólogo? Onde está o técnico de serviço social? Onde está o Gabinete de Apoio à Criança e à Família? Em alguns casos está na sala vazia só com a identificação na porta.

A criança não aguenta tanta pressão, tanta violência em casa por actos e palavras, tantos colegas na sala de aula. Não há tempo para explicações, o barulho, as ameaças pelo seu comportamento estreitam o canal de comunicação. Quem repara quando ele está estável? Normalmente o que se ouve dizer é: estás a aprontar alguma coisa.

Quem sabe que naquele dia não houve discussão em casa, que a mãe fez um jantar completo ou que o pai está com esperança de arranjar um emprego?

A verdade, que afinal, é a não verdade da tutela, nasce da verdade que entra na escola e que contraria os objectivos das decisões ministeriais.

A verdade da tutela é cumprir objectivos económicos, é selecionar pela origem social dos alunos, é colocar cada vez menos professores e aumentar o número de alunos por turma.

A criança é o elo mais fraco na educação, porque não tem voz, não tem poder. O único poder que tem é ser indisciplinada, afrontar os adultos da escola, é não aceitar o resultado do processo disciplinar, é fazer barulho nos corredores…é não obedecer às regras. Só da escola? Claro que não, também não obedece às regras sociais.

Salvo raras excepções, todas as crianças, querem ser boas alunas, todas querem ser reconhecidas nas suas especificidades, nenhuma quer ser diferente no acesso ao conhecimento, não querem ir para o desemprego, querem aprender uma profissão. Mas como podem concretizar este desejo se cada vez mais estas crianças são vistas como futuras trabalhadoras desempegadas, mão de obra barata.

A verdade das escolas que foram ou são TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) não é ouvida pelo ministério, não interessa. A verdade dos TEIP incomoda. A verdade da tutela é um subtil afastamento dos alunos com mais dificuldades económicas, sociais, culturais e de aprendizagem.

A gestão das escolas feita de nomeações, a falta de acompanhamento, os mega agrupamentos, os poucos assistentes operacionais, a redução do número de professores, o aumento do número de alunos por turma, a falta de equipas multidisciplinares, a violência em casa, o desconforto social comportam em si verdades pelas quais é necessário ter capacidade de enfrentar. Temos que lutar de outra forma, temos que lutar aliados à comunidade educativa do contexto onde estão inseridas as escolas. Temos que ter maneira de ter “tempo de antena”. É necessário saber-se publicamente como funcionam as escolas no seu dia- a- dia.

O sacrifício, das crianças, é intolerável. Levantar cedo, fazer grandes distâncias para chegar à escola, não ter o material necessário, não ter o tempo do professor, não aprender porque se alimenta mal, não fazer o TPC porque chega a casa tarde, ser castigado porque não sabe cumprir as regras da escola, ter que se encolher porque lhe gritam, entrar na escola às 8 horas e sair às 19 horas e, depois, ser não aprovado.

As crianças são excelentes a dizer esta escola não é para mim.

(texto publicado no JL a 25 de Junho de 2014)

 

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