MUNDO CÃO – Traçam-se as novas fronteiras do Médio Oriente – por José Goulão

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 Este artigo é transcrito da edição de 4 de Julho de 2014 de Jornalistas sem Fronteiras com a autorização expressa do autor e edtor

A Arábia Saudita reforçou em 30 mil homens o seu contingente militar nas zonas fronteiriças com o Iraque, confirmando-se que o governo de Riade não se considera a salvo da ofensiva que os fundamentalistas islâmicos do redenominado Exército islâmico (EI) desenvolvem na Síria e do Iraque.
Nos bastidores diplomáticos de Beirute considera-se que a recolocação das tropas sauditas se enquadra na informação divulgada por Jornalistas Sem Fronteiras e segundo a qual os Estados Unidos e a Arábia Saudita travam uma guerra surda pelo controlo da nova expressão do militarismo sunita que evoluiu a partir do Exército Islâmico do Iraque e do Levante, grupo terrorista criado clandestinamente pelos dois países.

“O Exército Islâmico mudou de nome e não é por acaso, nem por ter declarado um ‘califado’ nos territórios que controla no Iraque e na Síria”, afirma Ahmad Malouf, sociólogo libanês que se tem dedicado a investigar as novas relações sectárias e religiosas no Médio Oriente em função da desagregação dos Estados laicos e a emergência dos fundamentalismos políticos islâmicos.

“Para o desenho do ‘novo Médio Oriente’, que é a nova tendência imperial deste século e tem os seus ideólogos nos Estados Unidos e em Israel, mas também na Europa Ocidental, por exemplo em França, havia falta de uma componente sunita organizada, depois do estado em que a ocupação militar e o desmantelamento do regime de Saddam Hussein deixou a comunidade no Iraque”.

“Acresce”, prossegue Ahmad Malouf, “que a envolvente sunita na Síria era igualmente uma babel, tantos foram os grupos formados pela coligação ocidental para derrubar Assad e desmantelar o país – e o Líbano, também. Até que de entre eles, depois de muitos milhares de mortos em combates ditos ‘fratricidas’, emergiu o Exército Islâmico do Iraque e do Levante, no qual os mentores e financiadores parecem ter apostado todas as fichas para a grande transformação regional”. No entanto, sublinha Malouf, “estalou a desconfiança entre Riade e Washington sobre o controlo e os objectivos deste grupo, que se tornou estratégico para o sunismo em termos de partilha sectária”.

O cenário descrito por Malouf deve ser lido em conjunto com as outras circunstâncias regionais da actualidade. O presidente do governo regional curdo do Iraque, Massud Barzani, declarou numa reunião fechada no parlamento, mas para toda a gente saber, que deve ser organizado um referendo para a independência do território. A declaração foi feita dias depois de os principais dirigentes israelitas terem dito em coro que “deve ser apoiada” a independência do Curdistão.

Em Bagdade, porém, o precário primeiro ministro xiita Nouri al-Maliki afirma que a Constituição do Iraque não prevê referendos de secessão; porém, ele continua sem conseguir formar governo: os seus principais aliados curdos “estão já com a cabeça na independência”, sublinha Malouf, e os grupos sunitas que o apoiavam no Parlamento iraquiano juntaram-se agora ao Exército Islâmico.

“Um Estado do Curdistão, um ‘califado’ sunita, uma entidade xiita, eis o que vai ser em breve aquilo que era o Iraque”, prevê Anthony Eliot, um veterano dos movimentos políticos, diplomáticos e da espionagem nos bastidores de Beirute.

“Formalmente”, prossegue, “os americanos ainda dizem que Maliki tem de constituir um governo de unidade em Bagdade, mas sabem que isso é impossível. O que resta do exército iraquiano, no qual Washington investiu milhares de milhões de dólares, respondeu ao avanço sunita mas apenas como quem pretende defender a sua própria zona de jurisdição, de facto xiita. Entretanto desertou das fronteiras com a Jordânia, a Síria e a Arábia Saudita”.

Eliot lembra, a propósito, que o rei Abdallah da Arábia Saudita fez regressar ao activo o príncipe Bandar Bin Sultan, seu chefe dos serviços secretos e chefe operacional do terrorismo islâmico sunita, apesar de há menos de um ano ter sido “despedido” por pressões dos Estados Unidos, feitas através do secretário de Estado John Kerry.

“Vê-se que Riade tomou providências desde o regresso de Sultan”, considera Anthony Eliot. “Reforçou os controlos fronteiriços com o Iraque e tudo indica que as mudanças no Exército Islâmico não são apenas no nome. Elas serão a parte reivindicativa da Arábia Saudita neste processo de recomposição, de forma a garantir que o seu território continue intocável e a família real inamovível do trono. O rei terá feito saber isto a Obama na conversa telefónica que dizem ter tido há poucas horas”.

Em suma, deduziu Anthony Eliot, “o Iraque já não existe, a pressão militar sobre Damasco tenderá a aumentar, o destino da actual Jordânia – e também do Líbano – estará interligado com o que os Estados Unidos e Israel, com a conivência do Egipto de Al Sisi, farão à Palestina e aos palestinianos – que têm cada vez menos poder reivindicativo. Não devemos perder de vista que o Hamas será sempre um braço potencial deste renascido bloco sunita agregado em torno do Exército Islâmico”, advertiu Eliot.

José Goulão, Bruxelas, Charles Hussain, Beirute

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