(…) Repara que, na vida, quase sempre é a reta a distância mais longa entre dois pontos. Mas para que não emperre a tua manivela, fica-te pois com o elixir da longa vida, ou com o meu renascimento a cada quatro gerações da nossa família, ou ainda com o descontrolo magnético do cone do tempo que, sempre que eu chego aos oitenta anos dou por mim a sair da barriga de outra mãe e tudo começa de novo, e, se a mona não me falha, sete vidas já lá vão. Fica-te com o que melhor te aprouver, mas escuta o que eu tinha para te contar. (in MATA-CÃES – Fernando Correia da Silva)
As coisas eternas A notícia da morte seja ela de um desconhecido ou de alguém próximo encontra o silêncio. As palavras escondem-se envergonhadas porque dão conta do quanto são pequenas. Não acredito num lugar onde todos nos encontramos, nem nas vidas que ganham outras vidas. Sei onde mora o meu pai. Por dentro de mim. E isso me deixa feliz. O corpo que agora parte amou, disparatou e lutou por um mundo melhor. Escreveu, escreveu, escreveu. Riu e chorou de mansinho. Encarou a morte com dignidade. O corpo que se despede é semente de vontade de vida. O corpo que aos poucos se confundirá na terra que o abrigará é do meu pai, do homem que fez de mim parte do que sou. Nada lhe devo porque nas nossas contas nunca houve crédito, nem débito. Por outro lado, devo-lhe quase tudo. Aqui, neste pedaço de mim, onde ele me habita.