EDITORIAL – «A gente habitua-se a tudo»

logo editorialOuvir noticiários da televisão ou da rádio, ler as primeiras páginas dos jornais, seja em papel ou nas edições online, constitui um exercício violento, uma agressão psicológica a que só resistimos porque a nossa sensibilidade tem vindo a ser embotada e a anormalidade, aos poucos, foi rastejando e entrou na normalidade.

Nas notícias do exterior é a brutalidade animalesca da agressão israelita na Faixa de Gaza e a contabilidade de vítimas – milhares de palestinianos contra escassas dezenas de soldados hebraicos. E diz Benjamin Netanyahu não haver guerra «mais justificada», afirmação que só por si, constitui uma evidência da vitória do absurdo.

Na política nacional fazem-se as contas ao naufrágio do BES – três mil milhões de euros perdidos. Perdidos, para os portugueses em geral, acusados de ter gasto acima das suas possibilidades… A que contas bancárias terão ido parar todos estes milhares de milhões? Ricardo Salgado é o rosto desta ignomínia que supera em dimensão a burla de Alves dos Reis que, vai para nove décadas, agitou o País e terá sido um dos argumentos para a queda da Primeira República. Primeira República que substituiu uma instituição monárquica que se afogou no vómito de escândalos financeiros.

O regime ditatorial que durante quase meio século sufocou a vida nacional, morreu afundadado numa lixeira onde avultava uma guerra suja, miséria e atraso social e cultural. Decorridos quarenta anos sobre a queda do salazarismo, a democracia é um espectáculo deprimente de pulhas que roubam descaradamente, mas que continuam a ser tratados com todo o respeito. Com possibilidade de eleger livremente os seus representantes, quem são os eleitos pelos cidadãos? À mais alta magistratura, chega um indivíduo inqualificável que até com a polícia política do regime fascista colaborou. Espalhados pelos degraus do poder, vamos encontrar gente de um nível moral que transforma o pátio do presídio de Alcoentre num virtuoso cenáculo.

Conclusão?

– Mudar regimes políticos sem que haja um esforço para modificar comportamentos e o sentido de ética que os rege,   é tempo perdido.

A tão propalada «mudança de mentalidades» mais não tem sido do que uma operação de aggiornamento da moral – nela incorporando o que antes era considerado imoral. Misturadas com algumas correcções justas, entraram no redil da moralidade princípios humanamente imorais – como o da prevalência da esperteza e do oportunismo.  A banalização do mal, como diria Hannah Arendt, a filósofa judia tão contrária ao espírito dominante em Israel e que leva ao absurdo de Netanyahu considerar justificado o horror que ocorre na Palestina.

O papel dos órgãos de comunicação social nesta operação de branqueamento do terror tem sido crucial. Ouvir noticiários, ler notícias dos jornais, familiariza-nos com o horror e banaliza o mal. Politicamente correcto, humanamente monstruoso.

 

 

 

 

 

2 Comments

  1. Também aqui, Carlos Loures, a violência das notícias é tamanha que é preciso mudar de canal ao menos para não ver os detalhes dantescos dos latrocínios, assassinatos, esquartejamentos. Enquanto morrem 1000 pessoas em Gaza, morrem 3000 no Brasil, que não está em guerra !. Talvez seja hoje o país mais violento do mundo. Estamos vivendo, de fato, a banalização da violência, que de tão banal tornou-se invisível para a maioria das pessoas. Triste mundo este dos nossos cotidianos.
    abtaço solidário

  2. Acho muito bem que compare o caso “bes” ao terrorismo do hamas. Por mim sinto-me como os israelitas, bombardeados e aterrorizados e, sobretudo sinto-me suficientemente furiosa para fazer explodir os túneis da ignomínia.
    Já reparou que as as instituições portuguesas que é suposto serem democráticas, mais não são do que instrumentos do terrorismo financeiro que grassa neste país?
    Será que podemos pedir a intervenção das forças de paz da ONU para mediar o conflito financeiro que oprime o nosso povo? lol

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