AGRADECIMENTO
O trabalho agora publicado é basicamente o mesmo que foi apresentado nas palestras de Santana do Livramento (2007/2008) e na Internet no Informe Cyro Martins (artigo de fundo) no site http://www.celpcyro.org.br em abril de 2010. Ao tomar o formato de livro, no entanto, ele recebeu, além de um epílogo, dados adicionais tais como: fotos e documentos obtidos no Museu Enrique Amorim da cidade de Salto (Uruguai), quando lá estive em junho de 2010. Todo esse material me foi gentilmente posto à disposição para reprodução neste volume por Patrícia Castanãres, responsável pelo museu, que naquela oportunidade me acompanhou na visitação, proporcionando-me ainda interessantes informações referentes a Jorge Luis Borges, o ilustre hóspede do “Chalet Las Nubes”, hoje sede do Museu Enrique Amorim. As reproduções das fotos – década de 1930 – das cidades de Rivera e Santana do Livramento são gentileza do Arquivo Fotográfico de Osmar Santos – Rivera (Uruguai). Algumas fotos de “Las Nubes” e todas as da região da campanha do noroeste uruguaio são de autoria de Rafael Luizelli. A foto da avó materna de Borges – Leonor Suárez Haedo de Acevedo -, foi-me atenciosamente cedida pela Fundación San Telmo de Buenos Aires (Argentina).
INTRODUÇÃO
Este texto surgiu atendendo a um amável e honroso convite da senhora Marlene T. C. R. Pedroso, presidente da Academia Santanense de Letras, para ministrar duas palestras na cidade de Santana do Livramento. A primeira teve lugar na sede da Academia Santanense de Letras dirigida a seus membros e, a segunda, aberta ao público em geral, realizou-se um ano depois na Prefeitura Municipal da cidade no dia 8 de maio de 2008. Ambas versaram sobre o escritor argentino Jorge Luis Borges. Embora algo mais tenha sido acrescentado ao exposto nas duas ocasiões, não houve modificação essencial quanto ao assunto. É provável que o escrito ora apresentado esteja demasiado preso ao registro inicial de oralidade. Ainda assim, mantenho o formato de conversa, a que tive com o público muito especial de minha terra: o da fronteira Santana do Livramento – Rivera. O que agora apresento é o resultado, pois, dos dois encontros: notas e comentários a respeito não só da marcante vinda de Borges até nossa fronteira em janeiro de 1934, como também dos vestígios por ela deixados no Borges biográfico e no ficcionista, baseados em informações oferecidas principalmente pelo próprio autor, como se verá.
As citações que acompanham as fotos são retiradas do próprio texto e/ou ilustram informações nele contidas. Todas as traduções ao português são minhas e foram realizadas exclusivamente para aquelas palestras; as de terceiros foram e serão devidamente indicadas.
APRESENTAÇÃO
É, sobretudo, na qualidade de antiga e fiel leitora de Borges que me apresento diante de vocês para uma conversa que quer ser o mais à vontade possível. É meu desejo assinalar alguns aspectos que parecem relevantes quando de sua passagem pelos campos da região noroeste do Uruguai – espaço próximo e em parte contíguo à linha de fronteira com o Brasil – até desembocar na significativa visita a nossa cidade. O assunto é, pois, Borges – o homem e o escritor – na fronteira Brasil/Uruguai. Desejo ainda esclarecer que não tenho nem a intenção nem a pretensão de fazer qualquer análise crítica do trabalho literário do escritor. Isso cabe a críticos, pensadores e escritores, e tem sido feito exaustivamente com competência no mundo inteiro. Tentarei, portanto, me restringir ao tema proposto. Antes, porém, gostaria de lembrar alguns dados, ainda que sucintos, de sua vida e obra.
Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires na casa de seus avós maternos em um frio 24 de agosto de 1899 e faleceu ao amanhecer (na hora em que “a luz risca o ar”) do sábado 14 de junho de 1986 em Genebra – uma de suas, por ele assim chamadas, cidades. Borges está mundialmente consagrado como um dos maiores escritores do século XX, sendo já considerado um clássico da literatura ocidental, isto é, alguém que criou não somente uma obra, mas sim um universo – um sistema literário. Assim como o rei Midas da mitologia grega convertia tudo o que tocava em ouro (e aí se esgota a analogia, pois esse rei é o contrário de um criador), Borges transmudou toda sorte de criação humana (doutrinas religiosas, filosofia, cosmogonias, etc.) em literatura. Tudo, para ele, era passível de tornar-se matéria ficcional: do hinduísmo à cabala judaica; de certos dogmas do cristianismo à teologia; do budismo aos mitos clássicos, e assim por diante. O mundo, o universo, o próprio homem, a realidade toda, em suma, como que lhe servia de pretexto – pré-texto – para a criação de seu próprio texto literário.
Borges foi contista, ensaísta, poeta e, a partir de 1946, em razão de um sério contratempo motivado por questões políticas – episódio que será lembrado mais adiante – também foi conferencista. Não se pode esquecer, portanto, que existe um brilhante Borges oral, desdobrado em entrevistas, reportagens, diálogos e conversas. Ele foi o que se usa chamar, em francês, um grande causeur: alguém que fala bem e tem o gosto da conversação. Muitas dessas entrevistas e conversas – algumas nascidas para serem publicadas em livros – acrescentam valiosas informações à sua obra, ao seu pensamento e a aspectos de sua vida. Em geral, são opiniões expressas de modo informal e espontâneo, às vezes com respostas irônicas, sobretudo em matéria política quando provocado por algum entrevistador inconveniente, embora ele soubesse que isso lhe iria custar violentas críticas. Do contrário, respondia de bom grado e simpatia a qualquer assunto perguntado, contanto que lhe interessasse. Valho-me desse rico material para lhes passar informações relevantes ao tema que agora nos ocupa. Isso explicaria o uso e abuso premeditado que faço de citações, mas talvez não chegue a me eximir.
Sob certo aspecto, acho até que na mera condição de leitora, mantenho-me bastante próxima do nosso autor, já que ele preferia se reconhecer em primeiríssimo lugar como leitor, depois como poeta e, por último, como escritor de narrativas. Lembro, a propósito, esta confissão sua em poema: “outros que se vangloriem dos livros que escreveram, eu, orgulho-me dos livros que li”.[1] E ainda: “dediquei uma parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade menor é a poética, ou o que chamamos criação, que é uma mescla de esquecimento e de recordação do que lemos”.[2]
Mas, retomando o nosso tema, foi em Santana do Livramento que Borges viveu uma experiência nova e estranha e, sem dúvida, marcante – aqui ele assistiu pela primeira vez à morte de um homem em um café, com dois tiros, à queima-roupa. E para usar suas palavras: “lá vi matar a um homem perto de mim e esse fato me impressionou muito”.[3] Interessa, também, a viagem – travessia pelos campos do norte uruguaio, campos lindeiros e similares aos da campanha santanense – em razão das inesquecíveis impressões deixadas em sua pessoa e aludidas em alguns celebrados contos seus. Borges estava, na época em que viajou até a fronteira Rivera-Livramento, passando uma temporada de verão na casa de uma prima, Esther Haedo, na cidade de Salto, no Uruguai. Essa prima era casada com o escritor uruguaio Enrique Amorim. De lá, e sempre com Amorim, foi Borges até a estância do mesmo anfitrião, localizada no departamento (noção aproximada a de município) de Tacuarembó. Naquela região Borges viveu “experiências inéditas oferecidas pela gauchada: violência cotidiana, um agressivo primitivismo anacrônico” (…),[4] uma realidade, enfim, diferente da que conhecia. Da fazenda, rumaram então até as cidades gêmeas de Rivera e Santana do Livramento. Borges comenta, como se verá, a proximidade daqueles campos de Amorim com a fronteira do Brasil na qual não se distinguem os limites. Quanto às duas cidades mencionadas – singulares, indivisas física e naturalmente (como sabem os que aqui habitam) -, não há nenhum acidente geográfico que indique uma separação, apesar de pertencerem a dois países distintos. Essa particularidade foi destacada pelo próprio Borges em muitas ocasiões.
Sempre que possível, darei a palavra ao escritor, uma vez que ele foi pródigo em entrevistas e conversas com escritores, poetas e jornalistas do mundo todo, não constituindo exceção os fartos comentários a respeito da referida viagem. Além disso, não existe melhor maneira de evocar o acontecimento, e com maior fidelidade, do que ouvi-lo diretamente do autor sem esquecer, é claro, o prazer oferecido pela leitura de seu texto, mesmo que fragmentado. Somando-se aos depoimentos registrados pelo próprio Borges, possuo mais três que me foram transmitidos oralmente em momentos diversos, e serão comentados ao fim desta conversa.
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