O MEDO DE SER ABANDONADA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Nasceu numa família sem condições para lhe proporcionar o mínimo de bem-estar, o ambiente em casa era de alcoolismo e, relativamente a ela, era de negligência.

A família não tinha recursos para a sustentar. A criança estava a ser maltratada.

E a família alargada? não haverá ninguém que possa ficar com a criança enquanto se tenta resolver o problema do alcoolismo? Ou mesmo ficar com ela mantendo o mesmo grau de parentesco?

Colocar uma criança numa instituição, por falta de competência dos seus pais, é sempre traumático. E a criança interroga-se:

 Eles não sabem tratar de mim porque eu às vezes não obedeço, faço “porcaria”? Será que gostavam que eu fosse rapariga , mas eu sou rapaz?

Não gostam de mim, sim, não gostam de mim.

Não gostam de mim, sim, não gostam de mim.

À noite aparecem os monstros do abandono, de dia quer saber porque estão a tratar de a institucionalizá-la.

E se mais ninguém gosta de mim?

Fico triste, revoltado, dou pontapés, digo palavrões só para provocar. Fico sem fazer nada, não brinco, não quero falar com ninguém.

Há muitas crianças que têm sorte, os pais gostam delas, dão-lhe coisas, fazem-lhes festinhas…

A relação afectiva que se desenvolve nos primeiros tempos de vida, o vínculo, tão caro a Bowlbby e Aisworth, são cruciais para a vida da criança e dos pais.

Se conseguirem estabelecer uma ligação de empatia afectiva, a segurança embala-a devagarinho e os medos de ser abandonada é mais remoto.

Mas a família é desestruturada, há agressividade e violência, há violência conjugal, não há tempo para ela e quando há é, por vezes, para dizerem que a culpa é dela e” que eu vou ver”…

Algumas crianças esperam ser adoptadas por uns pais perfeitos, mas não há pais perfeitos. Os pais adoptantes querem filhos perfeitos, mas não há filhos perfeitos. Alguns querem que os filhos adoptivos sejam os filhos que idealizaram…mas os filhos biológicos também não obedecem a esse requisito…Alguns querem que os filhos adoptivos lhes agradeçam o facto de terem sido adoptados por eles…

Os pais adoptantes podem escolher o filho que querem: com menos de 3 anos, saudável  e branco.

As crianças não podem escolher os pais.

Pensemos nesta diferença de “poder” ainda o filho não está adoptado.

Quantas crianças não vão ouvir ” se soubesse que eras assim…”

Os critérios para se adoptar uma criança ainda estão imbuídos de preconceitos.

É preferível um casal a um solteiro, é preferível um casal mais jovem a um casal mais velho, é preferível uma solteira a um solteiro, é preferível um casal heterossexual a um casal homossexual…

Será justo devolver uma criança de adopção novamente para uma instituição?

Será justo adoptar uma criança porque não se tem filhos e precisa-se de companhia? Será justo devolver uma criança quando nascem os filhos que estes pais nunca tiveram?

A vida é feita de justiça e de injustiça, mas nestes casos há uma pessoa que já sofreu muito ao sair da família biológica, já sofreu muito a adaptar-se a uma nova vida com muitas crianças que não conhece, com muitos adultos que ela não sabe o que fazem.

O sofrimento é sempre imposto pelos adultos. Os adultos têm o poder de ficar ou não ficar com a criança, no entanto e apesar de der raro, a voz da criança também pode dizer que não quer aqueles pais, mas para o desejar é porque está em sofrimento.

bia 3.8

O medo de ser abandonada é uma das preocupações das crianças.

 

 

 

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