AMOR SUBLIME E OS “PERIGOS” DA PAIXÃO – 2 – por Rachel Gutiérrez

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Wuthering heights ( O morro dos ventos uivantes!), ou “os cumes de Wuthering”, como o próprio título sugere, é um ápice, um paroxismo, a história do abismo da paixão. E igualmente sugestivo é o nome do herói: Heathcliff, literalmente “penhasco ermo”.

Heathcliff aparece quando, aos sete anos, a heroína – Catherine Earnshaw (Cathy) está atingindo o que se convencionou chamar a idade da razão, mas cuja razão de existir, daí em diante chama-se apenas Heathcliff. E não é por acaso que esse poderoso personagem não tem pai nem mãe, ninguém sabe de onde veio. Tratam-no de cigano, selvagem, intruso. Apesar disso, ou por isso mesmo, o sonho de fundir-se com o outro, que persegue tantos amantes apaixonados, parece ter-se realizado em Heathcliff e Cathy adolescentes. Cathy, aliás, que é uma descendente direta da Marianne de Jane Austen , mais dolorosamente do que sua precursora, está dividida como Wuthering Heights, que fica a meio caminho entre o mundo civilizado dos vizinhos mais próximos mas ainda distantes, os Linton, e a charneca árida e selvagem. E disso ela tem plena consciência. Na comovente confissão à Nelly, sua governanta, diz:

Eu me degradaria se casasse com Heathcliff agora: por isso ele jamais saberá quanto eu o amo: e não porque ele seja bonito, Nelly, mas porque ele é mais eu do que eu mesma. Do que quer que nossas almas sejam feitas, a dele e a minha são a mesma; e a de Linton – o jovem vizinho, o rico e bem educado pretendente – é tão diferente de nós quanto um raio de luar é diferente de um relâmpago ou quanto o orvalho é diferente do fogo. (p. 73)

O amor de Cathy por Heathcliff transcende tudo, inclusive a própria sexualidade. Estranhamente, nesse mesmo diálogo com Nelly, ela afirma querer casar-se com Linton para ajudar Heathcliff!

… se eu me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a erguer-se, e a colocar-se fora do alcance de meu irmão ( que o odeia )…minhas grandes tristezas neste mundo tem sido as tristezas de Heathcliff, e percebi e senti tudo desde o início; meu único pensamento na vida é ele. ( p. 74 )

Despenhadeiro, inferno, Heathcliff, o estranho alter-ego, é um penhasco à beira-mar de onde se vê o infinito. É um abismo fascinante. E é o mergulho nesse abismo, ou o voo a partir desse penhasco, que propicia o êxtase, a indescritível e dolorosa felicidade de Cathy. Os Linton acenam com uma espécie de céu na terra: as riqueza, a cultura, o conforto e o bem-estar social, que escamoteiam a natureza e até mesmo a morte. E embora ela diga: não creio que o céu seja o meu lar, há o medo de perder-se, de ser reabsorvida pela natureza selvagem da charneca, porque a natureza, afinal, é a Mãe primitiva que inclui a morte, que é Vida e Morte ao mesmo tempo.

Paixão é excesso, transgressão. Sabemos que as transgressoras, adúlteras ou não, como tantas heroínas da história da ópera – Traviata, Manon Lescaut, Tosca, Carmen, e até mesmo a Marechala de Der Rosenkavalier, de Richard Strauss, que ousou amar um jovem, ela que já estava com 30 anos! – sofrem sempre algum tipo de punição.

Cathy é transgressora na medida em que é rebelde, teimosa, indomável. Como Heathcliff, ela é pura energia, embora a energia dele possua uma qualidade misteriosa. Cathy é amoral, Heathcliff, diabólico. E Cathy precisa morrer. Contudo, apesar da paixão que a levou à morte, esquecida da filha recém-nascida, do casamento, de tudo que não dissesse respeito a Heathcliff, em cujos braços despediu-se deste mundo, Cathy continuará tão viva quanto antes – tanto para o romance quanto para Heathcliff -, que, dilacerado exige ser atormentado por ela até o fim, até que a morte o venha libertar para o encontro definitivo com sua amada. Em nenhum outro romance a paixão amorosa foi capaz de vencer a morte de forma tão assombrosa.

Emily Brontë, injustamente menos conhecida do que sua irmã Charlotte, é uma espécie rara de gênio quase juvenil, que, sob o pseudônimo de Ellis Bell, só publicouImagem3 esse livro, que Georges Bataille considerou o mais extraordinário exemplo de contato da literatura com o mal, aos 29 anos, um ano antes de morrer. E a narrativa da mais avassaladora paixão, na literatura do século XIX, foi escrita por uma virgem, num obscuro presbitério de Yorkshire, onde só a imaginação tinha o poder de voar sobre a charneca.

 

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