CONTOS & CRÓNICAS – “O luto de Filomena” – por Joaquim Palminha Silva

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Pela manhã daquele dia, a sua solidão encontrava-se infelizmente acompanhada da gente da vila que sempre a detestara e invejara, mas que fingia velar com simpatia o morto, supostamente solidária com o seu desgosto… Na realidade, apenas arrastada para ali pela curiosidade coscuvilheira…

Conservando a sua tampa fechada, todos os presentes estranhavam o tamanho do caixão… No vulgar cadastro histórico da vila, aquele tamanho de caixão só poderia ser de criança. De um filho de Filomena, até então ignorado por toda vila e, desaforo para a moral comum, provavelmente internado num desses sórdidos estabelecimentos públicos da capital, destinados a órfãos e abandonados. A intraduzível curiosidade geral dos vizinhos da vila, diga-se, era inimaginável, pois deste que Filomena partira para Lisboa e, portanto, passara a frequentar pouco a casa da terra natal, a sua distante vida privada ficou envolvida em mistério… E, assim, pasto da má-língua da rua, do bairro, da vila.

 Mesmo ali, na capela mortuária, contrariando a atmosfera triste e o seu natural remoinho de desgosto, a admiração de todos concentrava-se na bela e loira Filomena envolvida em sedas negras, esboçando cada qual, apenas para disfarce, um esgar de compaixão pelo morto, fosse lá quem fosse o desgraçado. A única nota enigmática era, está bem de ver, o reduzido comprimento do caixão…

       Na vida e na morte tudo tem uma explicação, desde que o ser humano saiba dar andamento às deliberações dos sentimentos. Escutemos a confissão e luto de Filomena.

*

Durante algum tempo pensei estar enganada, mas à medida que os anos passaram e o meu corpo se tornou cada vez mais esbelto e, atabalhoadamente, os homens o cobiçavam, comecei a sentir uma grande aversão pelas criaturas masculinas que me fitavam sempre sem inteligência, como quem olha para uma montra de modas e aprecia, com devassidão provocadora, a roupa interior feminina exposta em manequins bens esculpidos, para melhor dizer, como quem olha uma montra de pastelaria recheada de confeitaria de luxo!

            Vivemos uma época de esterilidade cultural, e os homens continuam intoxicados com feudalismos mentais, escravos de seculares maquinações machistas, como que programados desde há muito para verem em nós, mulheres, antes de tudo, as formas do nosso corpo, jamais a luz da nossa inteligência.

Continuam, pois, a praticar o mesmo tipo de olhar de sempre e, na maioria dos casos, a pensarem, mas agora de forma mais sorrateira, que as mulheres são “objectos” humanos da criação Divina, estruturadas como apêndices do homem, para seu desfrute sexual, primeiro que tudo, e só depois e em casos de extrema raridade, seres humanos com capacidades e refinamentos de inteligência superiores.

…E no entanto, possuímos uma das mais poderosas formas de energia (a energia maternal!), que só agora começamos a conhecer e a saber quanto ela recolhe do nosso espírito feminino. Quando um dia a soubermos utilizar com a perfeita e lúcida consciência do seu valor, o mundo será efectivamente transformado, humanizado como um Evangelho, puro e sublimado como nuvem na Primavera!

Porque estou a recordar tu isto? – Porque o facto de ser dotada de rara beleza física, tornou o meu quotidiano insuportável… Até à náusea aturei o pior dos olhares masculinos, das palavras masculinas, dos desejos masculinos, das falsas promessas masculinas. Tudo, mas mesmo tudo, completamente inquinado pelo facto de ser bela, de ter um rosto de regularidade rara, de recorte plástico quase artístico, iluminado pelos frequentes sorrisos de simpatia que vou divulgando através de uma dentadura branquíssima, de ter um corpo que Miguel Ângelo não desdenharia, de ser o sonho feminino de uma multidão de “papa açordas” inqualificáveis.

Escuso de dizer que não sou pessoa doentia e, por conseguinte, não me pus a mutilar a beleza com que Deus e a natureza me dotaram. Todavia, comecei a encarar as minhas formas físicas como doentia fonte de infelicidade, um efectivo silício martirizando a minha existência. Um fardo desagradável. Uma algazarra de dissabores e mal entendidos continuados. E isto levou-me a afastar o mais possível as pretensões masculinas, fossem elas o que fossem. Resultado: permaneci uma mulher só! Nasceram dentro de mim profundos rios de tristeza e pontes de solidão que, é claro, só serviam para atravessar o meu desespero… Enfim, para todos os homens fui apenas um ser fisicamente táctil, sentimentalmente sofrível e culturalmente invisível.

Foi nessa altura que encontrei o Professor Luís… O Professor Luís leccionava História e Filosofia numa das várias Universidades do ensino privado de Lisboa. Devo acrescentar que o conheci enquanto tardia aluna, pois eu já ia na casa dos 30 anos. De resto, devo dizer que o meu interesse pelo Professor Luís foi objecto de uma atracção preenchida por repentes mágicos, que só paulatinamente se foram revelando.

Lembro com saudade…

«- Então a Filomena quer ser desagradável para comigo? Tenta… Mas não consegue… Nada há a temer de mim… Como vê!  Eu não posso aspirar a mais do que uma sã amizade…».

Reparei que o Professor Luís manifestava por mim um interesse diferente. Quando falava comigo, olhava-me com uma expressão séria e dirigia-se à minha inteligência. Nunca apareceu a cortejar a minha beleza. Nunca me disse se estava “bonita” por isto ou por aquilo. Nunca mencionou algum aspecto da minha beleza física ou comentou o meu bom ou mau gosto na escolha da indumentária diária. Isto, devo dizer, foi para mim de grande alívio. O Professor Luís foi o único homem que, inicialmente, se esqueceu quanto eu era mulher, para se dirigir apenas ao ser humano, à pessoa que ele estimava pela sua cultura e inteligência, a alguém de existia independentemente do seu sexo.

Recordo com saudade…

            «- Existe algo dentro de si… Uma insatisfação. Noto os pensamentos que estão mais dentro de si e não os que ficam à superfície, os que são objecto das atenções e sorrisos lúbricos dos homens… De resto, a Filomena foi também a única pessoa que não denunciou curiosidade alguma pelo meu aspectos físico e, ainda por cima, soube concluir que sou alguém com quem se pode trocar opiniões, aprofundar conhecimentos, discutir ideias.».

Havia uma intensa luz nos olhos do Professor Luís. Comecei a aprender a educar as emoções e a analisar com cuidado as suas reacções… Enfim, com a maior das naturalidades, alcancei enfrentar a primeira grande surpresa da minha vida: – Da simpatia passei à ternura e desta ao amor! Se o Professor Luís um dia acordou com a alma em festa, eu devo confessar que despertei feliz!

Pela primeira vez na minha vida alguém me amava para lá das formas do corpo! O amor despertou-me para sentimentos que eu julgava impossíveis de acontecer… E houve um dia em que, finalmente, em vez de amaldiçoar a minha beleza física, agradeci a Deus tamanha dádiva, na medida em que com ela proporcionava grande felicidade ao Professor Luís, ao único homem que valia a pena amar!

Casei com Luís, a quem deixei de chamar Professor. Nunca as suas mãos afagaram mulher mais terna, nunca mais me senti desamparada na minha beleza… e solitária na minha vida!

Passaram anos. Luís faleceu com cancro de pulmão, grande fumador que era!

Estou aqui parada há horas… Não consigo pensar em nada… Sinto uma dor aguda no coração… Às vezes, penso que fiz asneira em trazê-lo para a minha terra, para junto de mim…

Alguém manifestou num cochicho que não era normal conservar o caixão encerrado, antes de baixar à terra. Tive a impressão de que a assistência, composta por pitonisas e sibilas de galinheiro, imaginaria que eu temia qualquer coisa… Chamei o mordomo da “Agência Funerária”, e um dos arrumadores fúnebres destapou com extremo cuidado o caixão.

Súbito, toda aquela gente que andava a inquirir sobre a minha vida, todas aquelas mulheres revoltadas contra a minha beleza, por causa dos olhares lascivos dos maridos que as não respeitavam, que as não fidelizavam, ficou calada, de boca aberta, pensativa. Toda aquela assistência rançosa ficou aterrada! Ninguém queria acreditar em mim, por isso odiavam ter de acreditar no que viam! Então atirei-lhes à cara com a verdade, sem ódio mas vingadora:

«- Sim! Meu marido era corcunda e anão! … E um brilhante professor universitário! Aí tendes a explicação do tamanho do caixão! Mas o que este homem representa para mim não cabe aí dentro: – A dignidade de tratamento, a dimensão espiritual, a minha própria razão de ser!».

Filomena acabara de confessar!

Ao entrar para o carro funerário a caminho do cemitério, ainda lhe ouviram murmurar entre dentes: «-Podem chorar de ciúmes, suas bruxas fedorentas e seus bárbaros impotentes e minguados!»

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