A FÁBULA DO MIÚDO CHAMADO IMAGINÁRIO – por Manuel Simões
Havia uma pequena cidade de província, tranquila e meio-adormecida como tantas outras, que um dia foi despertada por um caso insólito e muito discutido nos cafés e nas ruas, quando as pessoas paravam para se cumprimentarem. Até em casa a discussão se animava, por algum tempo se voltou a falar à mesa, sobretudo à hora do jantar, esquecendo o bicho absorvente da televisão que, a essa hora, mostrava sempre senhores engravatados, com ar muito grave, que punham e dispunham como se eles fossem os donos das palavras. Que caso era este, capaz assim de interessar os habitantes como só raras vezes tinha acontecido? Já vão ver que não era coisa de pouca importância, coisa de miúdos, como alguns adultos se atreveram a ironizar.
Desde tempos que já ninguém recordava, as crianças tinham um largo da cidade para os seus jogos: um grupo jogava à bola, outro divertia-se com o jogo do eixo ribaldeixo, outros ainda brincavam ao berlinde, ao pé-coxinho, ao quem-me-agarra, e assim por diante. Era um largo situado num sítio central, cómodo para todos, sem trânsito de automóveis porque o chão era de terra com alguma erva espreitando aqui e ali. Tinha, à volta, casas antigas com grandes janelas de guilhotina e, um tanto ao acaso, plantadas não se sabia por quem, algumas tílias que sobreviviam à incúria dos homens que governavam a cidade. As tílias, porém, vingavam-se do desprezo a que eram votadas e todos os anos, no mês de Maio, invadiam a cidade com um perfume tão intenso que, nas noites calmas, entrava pelas janelas e chegava a fazer dor de cabeça. Mas voltemos ao caso.
Ora aconteceu que um dia, acabada a escola e feitos os trabalhos de casa, os meninos começaram a chegar como habitualmente ao largo, já então conhecido por todos como Largo dos Putos, esquecendo por completo um senhor de nome arrevezado, que pouca gente conhecia e cujo nome figurava num quadrado de azulejos posto a cada canto da praça. Os meninos começaram a chegar, dizia eu, mas qual não foi o seu espanto ao verem o espaço ocupado, duma ponta à outra, com as tendas dos vendedores ambulantes. Tinha havido reunião camarária, havia que destinar um novo local aos ambulantes e os senhores vereadores, atentos e veneradores ao discurso do presidente, não estiveram com meias medidas: mandam-se para o Largo dos Putos.
«Isto não pode ficar assim» – disseram alguns meninos e também meninas, que o largo era de todos. «E nós vamos ficar de braços caídos, sem sítio para brincar?». Foi então que um deles, que por acaso se chamava Imaginário, teve uma ideia logo aprovada pelo grupo. Fizeram uma manifestação em frente do Município, utilizando pífaros, tambores e a voz da razão que os assistia: «A Câmara destinou o Largo dos Putos aos ambulantes. O Largo é nosso, os putos somos nós». E com um megafone, um dos miúdos assomou a uma janela, gritando aos vendedores: «Ambulantes, vão-se embora! Este local é nosso!». E para os transeuntes que passavam: «Não comprem nada aos ambulantes!».
Então foi a vez de os ambulantes se armarem de razões, manifestando-se igualmente no Município: não estavam contra os putos mas precisavam de um espaço citadino que não fosse periférico por causa dos clientes. E disse um vendedor: «Também nós temos filhos. O que lhes damos de comer, um punhado de moscas?». E o caso, como se vê, parecia bicudo…
Entretanto os miúdos, ocupando o espaço, festejavam a sua aparente vitória. Fizeram uma roda, escolhiam já os companheiros para o próximo jogo, sabendo agora por experiência que vale a pena reivindicar os próprios direitos, mas parecia que não tinham consciência do outro lado da questão. Como se uma qualquer reminiscência de ética lhe chegasse à memória, foi Imaginário a reflectir em voz alta: «Nós ganhámos. Mas os ambulantes, o que dão aos filhos? Vamos pelas ruas e dizemos às pessoas para irem ao largo da feira e comprarem aos ambulantes».
Perante a lucidez inesperada e o acerto de tamanha decisão, a edilidade reconsiderou o caso, os senhores vereadores estavam ainda mais atentos e veneradores, e correspondeu com igual acerto: entregou aos miúdos um outro largo, também no centro da cidade, e que eles próprios passaram a designar como “Largo da Liberdade”.