Ainda há quem defenda valores que vinham do passado e quem fale da importância que era dada à palavra. Palavra dada era cumprida, tal como “pedra tocada, pedra jogada” no xadrez.
Mas… o tempo da palavra, das regras da boa conduta, da honra, da responsabilidade e da vergonha, estão a desvanecer-se. Parece vigorar mais o ditado de que “quem tem vergonha anda magro”!
A verdade pode constituir-se numa espécie de extrato da amargura. Por isso, em vez de se explicar tim tim por tim o que se passou, demora-se uma série de dias. Pede-se para o caso ser analisado em determinados departamentos. Depois daqueles a quem se pediu dizerem que o assunto não é tratado naqueles locais, usa-se da palavra de lata, que em tempos já foi de ouro!
Não se conta tudo, fazem-se curvas e contra curvas, porque para escapar é preciso usar meios tortuosos. Sabe-se que é fácil matar em voo uma ave que vai a direito, mas não a que se desvia continuamente.
Depois arranja-se uma trama. Foi-se vítima de uma cabala, meteu-se com poderosos, fez-lhes perder poder e eles vingaram-se.
A seguir entram alguns “bravos” camaradas que reconfortados com a labiríntica explicação sobre a verdade, atacam os que tornaram o assunto público. Chamam-lhes malandros e mal intencionados, e elogiam aquele que durante dias “fez um grande esforço” para procurar obter a prova de que está inocente. Curiosamente, os bêbedos também procuram a prova de que não estão bêbedos a cada passo.
Ao fazê-lo, os “ bravos” camaradas, sem vergonha, insinuam que a sua colaboração é gratuita e que não o fazem para obter reputação junto dos que têm poder, nem para aproveitarem as migalhas que lhes podem ser distribuídas.
“E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal”, como diz a canção do Fausto.