Carta de Évora – 5 – por Joaquim Palminha Silva  

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            A Praça Grande começou a debruçar-se sobre a história portuguesa e de Évora, quando esta era então a 2ª cidade do Reino!

            Já não anda no ar a aristocrática, inquisitorial, trágica, mas também patriótica e popular “vaidade” da Praça Grande, transformada prosaicamente nos meados do século XIX (com o nome de um malfeitor!) em Praça de Giraldo, mas a sua história está a pedir o trajo de gala de que o tempo e a curta memória das gentes acabaram por a despojar, sem disso terem consciência.

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            É importante que não se esqueça que ela foi berço da velha Aljama (bairro da judiaria que estava encravado entre as portas de Alconchel e Raimundo). Que foi palco do funesto e irreparável dano que espiritualmente, se assim podemos dizer, lhe causou o Tribunal do Santo Ofício (Inquisição de Évora), efectivamente inaugurado com o seu primeiro inquisidor distrital, o «doutor João de Melo», em 5 de Setembro de 1541.

            Diz-nos António Borges Coelho (vd. A Inquisição de Évora, 1533-1668, Lisboa 2002), na obra que aborda, até à exaustão, o fanatismo religioso praticado em Évora no trágico palco da sua actual Praça de Giraldo: «Mestre Álvaro, cirurgião de Évora, 47 anos, foi a queimar na Praça Grande em 12 de Maio de 1596, apesar da corajosa defesa oposta por suas filhas freiras.». Eis, pois, incluído nesta carta, umas linhas de recolhimento em memória dos muitos “justiçados” pelo fogo na Praça Grande, depois das autoridades lhes terem confiscado os bens.

            Enfim, pelo que toca à história da intolerância religiosa, basta! – Basta? Não, não basta! É útil, e historicamente salutar que se saiba que esta actual Praça de Giraldo viu as pilhas de lenha com postes, a que se amarravam as vítimas a queimar.

            O clima que se respirou durante séculos na Praça Grande, além das touradas, tem conteúdos diversos, passos de novela, capazes de inspirar escritores de envergadura própria para fazer da história um romance.

            Ao longo dos séculos, este espaço emblemático da cidade, atulhado de história, conheceu na 2ª metade do século XX um momento único que, creio, ainda perdura: a grande manifestação do 1º de Maio de 1974 (de que apresento dois momentos)! Mas quem é que hoje, turisticamente falando, por assim dizer, quer saber disso?!

            Hoje, quem chega a Évora e acorre à Praça de Giraldo, em busca de ressonâncias históricas, encontra uma praça desarranjada, encardida, com o tabuleiro central povoado por esplanadas propícias a receber dejectos de pombos. De um lado, o arrogante Banco de Portugal, desairoso e pesado como um carimbo de Alfandega; do outro lado, a Igreja de Santo Antão, de fachada suja, relógio desacertado ou parado e, devagar devagarinho quase parada, uma geral atmosfera fuliginosa, que nos põe a boca áspera e a língua encortiçada… Remorosos, medos, palavras estagnadas, bocejos e a congestão continuada de tendas e palcos para exibições artísticas de embrulho, intervaladas por publicidade de pacote…

            Praça de Giraldo, espessa como toucinho rançoso, pobre recinto bezunta, meio sonolento, a sacudir as moscas …

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