Reflexão – 8 – Adão Cruz*

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 *Médico cardiologista

A minha vida clínica de mais de meio século está a findar. Desde a medicina rural nos contrafortes da Serra da Gralheira até à primitiva e precária assistência médica na guerra colonial, passando pela sombria urgência do Hospital de Santo António até às avançadas tecnologias dos dias de hoje, tudo atravessei, com a consciência de que a minha consciência nunca me atraiçoou.

De tudo eu vi, desde a máxima nobreza do ser humano à sua maior indignidade e degradação. Em todo o meu percurso sempre atento às forças e fraquezas humanas, não deixei de erguer vitórias e tropeçar em fracassos. Como toda a gente, sobretudo um médico, cujos valores da sua nobilíssima e exigente missão o não libertam da fragilidade humana.

Mas todos os meus sonhos e todos os horizontes que esses sonhos abriram à minha frente durante uma vida inteira estão a ruir e a dissolver-se na angústia e na tristeza do acordar. A alienação do conceito de valor e o obscurantismo ao serviço da destruição da vida e da cultura deram ao mundo esta disforme aberração “civilizacional” em que estamos a morrer.

O mundo selvagem que os argentários monstros dos dias de hoje criaram não permite viver, só permite morrer e fazem com que eu olhe para trás, para os inúmeros testemunhos de uma vida inteira, com a dor imensa de um trágico sentimento de aniquilação de toda a esperança num mundo de justiça e harmonia do Homem Novo.

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