GIRO DO HORIZONTE – REGRESSO – por Pedro de Pezarat Correia

01Consulto os meus arquivos e constato: o meu último GDH foi de 13 de Janeiro. Quase nove meses já lá vão!

            De fato, problemas do foro estritamente pessoal que só a mim respeitam, inibiam-me. Bloqueavam-me. Precisei de tempo e estou agora a fazer o possível por regressar, reembarcar na nau da nossa viagem, assegurando uma participação tanto quanto possível regular. Só prometo que estou a tentar.

            E foram nove meses que tanto houve para comentar, infelizmente quase sempre numa perspetiva muito crítica e muito pessimista. No domínio doméstico, interno, certamente, mas também no internacional, no externo, no emaranhado dos conflitos que não cessam de se agravar e de nos surpreender (?) pelos novos contornos que assumem.

            No plano interno estamos mergulhados num pântano que fede. Foram-se os homens da troika, mas ficaram as suas marionetas que continuam a mover-se ao sabor dos seus impulsos. O BES/GES implode e surgem as useiras falsas virgens surpresas porque vem à superfície o cúmplice relacionamento dos senhores da finança com os políticos que nos vão afundando. Afinal o esterco do BPN e doutros que tais não era um epifenómeno excecional. A coligação que se apoderou do país e controla as alavancas do poder, para vender as sobras do escasso património a preço de saldo, multiplica-se em habilidades e truques rasteiros para enganar os tolos, os desatentos e os que ainda pensam que lhes podem cair algumas migalhas na tigela. Usa a maioria parlamentar para abafar escândalos – perversão máxima da democracia com o parlamento na dependência do executivo mas com o atual sistema não há volta a dar-lhe – com o primeiro-ministro envolvido em contabilidades pessoais equívocas e perdendo definitivamente qualquer legitimidade ética para exigir sacrifícios aos portugueses. Ministros vão pedindo desculpas que os cidadãos não lhes concedem até porque os “incómodos” se arrastam sem soluções, mas continuam em funções sem uma réstia de vergonha na cara. Só à pituitária do presidente da República não chegam os pestilentos odores do pântano. Entretanto as eleições europeias mergulharam o PS numa luta intestina que podia ter sido útil mas que chegou a ser penosa. Ao menos acabou bem. E mais à esquerda multiplicam-se as tentações da sua matriz genética, a proliferação “grupuscular”, emergem dissidências, cisões, ruturas e anunciam-se novos partidos sempre, é claro, com o assumido e paradoxal objetivo de “unir a esquerda”. Já conhecemos o filme e até sabemos como acaba.

            No domínio externo a situação está a tornar-se alarmante. Os últimos epicentros da conflitualidade generalizada são a Ucrânia e o Califado do Estado Islâmico. E Gaza, é claro. Afinal trata-se apenas de agravamentos de crises que vêm de longe. E nas quais os aliados do chamado “ocidente”, EUA e UE, tudo têm feito para fomentar o caos, agravá-lo e fazê-lo durar. A gestão que, nomeadamente Washington, Paris e Bruxelas (UE), vêm fazendo dos conflitos na Ucrânia, na Síria, no Iraque, na Palestina, é patética e calamitosa. E suicidária. Obama parece testar completamente subjugado aos poderes fáticos norte-americanos, o complexo industrial militar e o loby judaico. Foi uma esperança tragicamente esfumada. Hollande vem-se revelando ainda pior do que desde o início já se suspeitava. É uma confirmação penosamente agravada. Entretanto por estas bandas, que se pretendem o núcleo civilizacional da globalização, a extrema-direita vai tomando o controlo das rédeas do sistema.

            Não há dúvida que, ao longo destes nove meses, o GDH esteve ausente de demasiadas coisas. Como Proust, vamos tentar ir em busca do tempo perdido.

6 de Outubro de 2014

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