Além de algumas nações ocidentais, os Estados árabes também ofereceram apoio militar aos ataques dos EUA contra o EIIl no Iraque e na Síria. Será este um caso de uma forma de fundamentalismo islâmico (Arábia Saudita, por exemplo) a mostrar medo de outra forma de fundamentalismo islâmico (EIIL)?
Como o New York Times relatou com precisão, o apoio é “morno”. Os regimes certamente temem o EIIL, mas este continua aparentemente a atrair apoio financeiro de doadores ricos na Arábia Saudita e nos Emirados, e as suas raízes ideológicas, como mencionei, estão no extremismo islâmico radical Saudita, que não se reduziu.
A vida em Gaza voltou à normalidade depois de o Hamas e Israel concordarem com um cessar-fogo. Por quanto tempo?
Eu hesitaria em usar o termo “normalidade”. O ataque mais recente foi ainda mais cruel do que os antecedentes e o seu impacto é horrendo. A ditadura militar egípcia, que é amargamente anti-Hamas, também está a acrescer à tragédia.
“De cada a vez Israel ignorou os acordos enquanto que o Hamas os cumpriu (como Israel admite) até alguma escalada israelita desencadear uma resposta de Hamas, o que dá a Israel outra oportunidade para aproveitar as abertas”
O que vai acontecer a seguir? Tem havido um padrão regular desde que um primeiro acordo destes foi alcançado entre Israel e a Autoridade Palestiniana, em novembro de 2005. Exigiu “uma passagem entre Gaza e o Egito em Rafah para a exportação de mercadorias e o trânsito de pessoas, a operação contínua de passagens entre Israel e Gaza para a importação/exportação de mercadorias e o trânsito de pessoas, a redução dos obstáculos à circulação dentro da Margem Ocidental, colunas de autocarros e camiões de entre a Margem Ocidental e Gaza, a construção de um porto em Gaza [e a] reabertura do aeroporto de Gaza “que bombardeamentos israelitas tinham demolido”.
Acordos posteriores foram variações sobre os mesmos temas, o atual também. De cada vez, Israel ignorou os acordos enquanto que o Hamas tem cumprido (como Israel admite) até alguma escalada israelita desencadear uma resposta de Hamas, o que dá a Israel outra oportunidade para “aproveitar as abertas”, na sua elegante frase. Os intercalares períodos de “acalmia” (querendo dizer acalmia num só sentido) permitem que Israel leve por diante as suas políticas de assumir tudo o que valoriza na Cisjordânia, deixando os palestinianos em cantões desmembrados. Tudo, claro, com o apoio crucial dos EUA – militar, económico, diplomático e ideológico -, para moldar as questões de acordo com a perspetiva básica de Israel.
Esse foi, na verdade, o objetivo do “descompromisso” de Israel em relação a Gaza em 2005 – enquanto se mantinha como a força de ocupação, conforme foi reconhecido pelo mundo (salvo Israel), e até pelos EUA. O objetivo foi delineado candidamente pelo arquiteto e chefe negociador do “descompromisso”, Dov Weissglass, íntimo adjunto do primeiro-ministro Sharon. Ele informou à imprensa que “a importância do plano de descompromisso é o congelamento do processo de paz. E quando se congela esse processo, impede-se o estabelecimento de um estado palestiniano e impede-se uma discussão sobre os refugiados, as fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo este pacote chamado Estado palestiniano, com tudo o que isso implica, foi indefinidamente retirado da nossa agenda. E tudo isso com autoridade e permissão. Tudo com uma bênção presidencial [dos EUA] e a ratificação de ambas as câmaras do Congresso”.
Esse padrão foi reiterado várias vezes e parece que está a ser hoje recolocado em vigor. No entanto, alguns comentadores israelitas conhecedores sugeriram que Israel pode finalmente relaxar a tortura que faz a Gaza. A sua apropriação ilegal de grande parte da Cisjordânia (inclusive a Grande Jerusalém) prosseguiu tão longe que as autoridades israelitas podem antecipar que seja irreversível. E eles agora têm na brutal ditadura militar no Egito um aliado cooperante. Além disso, a ascensão do EIIL e o estilhaçamento geral da região têm melhorado a aliança tácita com a ditadura Saudita e possivelmente com outros. Possivelmente, Israel pode afastar-se do seu extremo rejecionismo, embora por agora os sinais não pareçam auspiciosos.
A última carnificina israelita em Gaza agitou a opinião pública em todo o mundo, cada vez mais contra o estado de Israel. Até que ponto será o apoio incondicional prestado pelos EUA em relação a Israel um ganho no jogo de fatores políticos internos, e em que condições vê uma mudança na política de Washington em relação a Telavive?
Há fatores internos muito poderosos. Um exemplo deu-se bem no meio da mais recente agressão israelita. A dado ponto, as armas israelitas pareciam começar a faltar e os EUA gentilmente forneceram a Israel armas mais avançadas, o que lhe permitiu levar o ataque mais longe. Estas armas foram retiradas do estoque que os Estados Unidos coloca antecipadamente em Israel, para eventual utilização pelas forças dos EUA, uma das muitas indicações das conexões militares muito próximas que remontam a muitos anos. As interações de serviços de informações secretas estão ainda mais bem estabelecidas. Israel é também um local favorecido para investidores dos Estados Unidos, não só na sua economia militar avançada. Há um enorme bloco eleitoral de cristãos evangélicos que é fanaticamente pró-Israel. Há também um lóbi Israelita eficaz, que muitas vezes empurra uma porta aberta – e que, sem surpresa, rapidamente recua quando confronta o poder dos EUA.
Há, no entanto, mudanças em sentimentos populares, especialmente entre os mais jovens, incluindo a comunidade judaica. Eu, como outros, passo pessoalmente por essa experiência. Há não muito tempo atrás tive literalmente de ter proteção policial, quando falei sobre estes temas em campus universitários, até mesmo na minha própria universidade. Isso mudou imenso. Nesta altura a solidariedade com a Palestina é um Grande compromisso em muitos campus. Ao longo do tempo, estas alterações podem combinar-se com alguns outros fatores que levem a uma mudança de política dos EUA. Isso já aconteceu antes. Mas vai precisar de trabalho duro, sério e dedicado.