PRAÇA DA REVOLTA – Notas sobre uma entrevista a Noam Chomsky: –6 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

Quais são os alvos e os objectivos da política dos EUA na Ucrânia, sem ser provocar problemas e a seguir deixar outras forças fazerem o trabalho sujo?

Imediatamente após a queda do muro de Berlim e o subsequente colapso da URSS, os EUA começaram a procurar estender o seu domínio, incluindo a pertença à NATO, às regiões libertadas do controle russo – violando as promessas verbais a Gorbachev, cujos protestos foram desconsiderados. A Ucrânia é certamente o próximo fruto maduro que os EUA esperam colher dessa árvore.

Não terá a Rússia uma preocupação legítima com a potencial aliança da Ucrânia com a NATO?

“Os EUA estão na raiz da crise atual Ucrânia”

Uma preocupação muito legítima com a expansão da NATO em geral. Isto é tão óbvio que é até tema do artigo principal na edição atual da destacada revista do sistema Foreign Affairs, através do estudioso das relações internacionais John Mearsheimer. Ele faz a observação de que os EUA estão na raiz da crise atual na Ucrânia.

Olhando para a atual situação no Iraque, Síria, Líbia, Nigéria, Ucrânia, Mar da China e até partes da Europa, o recente comentário de Zbigniew Brzezinski na MSNBC de que “Estamos diante de um tipo de caos a espalhar-se dinamicamente em algumas partes do mundo” parece bastante a propósito. Quanto deste desenvolvimento está relacionado com o declínio de uma hegemonia global e com o equilíbrio de poder que existia na época da Guerra Fria?

O poder dos EUA atingiu o seu auge em 1945 e tem estado a declinar de forma muito constante desde então. Tem havido muitas mudanças nos últimos anos. Uma, é a ascensão da China como grande potência. Outra, é a América Latina libertar-se do controlo imperial (durante o último século, o controle dos EUA) pela primeira vez em 500 anos. Relacionada com estes desenvolvimentos está a ascensão do bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Indonésia, China, África do do Sul) e a Organização para a Cooperação de Xangai, sediada na China e que inclui Índia, Paquistão, Estados da Ásia Central e outros.

Mas os EUA permanecem a potência mundial dominante, em grande medida.

O 69º aniversário do bombardeio atómico dos EUA das cidades de Hiroshima e Nagasaki marcou o mês passado no Japão, contudo o desarmamento nuclear continua a ser uma quimera. Num recente artigo, destacou a questão de que estamos apenas felizes por termos evitado uma guerra nuclear, até agora. Acha então que é uma questão de tempo até as armas nucleares caírem nas mãos de grupos terroristas?

“As armas nucleares já estão nas mãos de grupos terroristas: os terroristas de estado”

As armas nucleares já estão nas mãos de grupos terroristas: terroristas de Estado, os EUA primeiramente entre eles. É concebível que armas de destruição em massa também possam cair nas mãos de “terroristas de retalho,” aumentando muito os enormes perigos para a sobrevivência.

Desde os anos 70, as economias mais avançadas retornaram ao capitalismo predatório. Como resultado, a desigualdade de rendimento e de riqueza atingiu níveis espectaculares, a pobreza está a ficar entrincheirada, o desemprego está a subir como um foguete e os níveis de vida estão a decair. A somar a isto, o “capitalismo realmente existente” está a causar danos ambientais e destruição em massa o que, juntamente com a explosão demográfica, nos conduz a um desastre global sem mitigação. Conseguirá a civilização sobreviver ao capitalismo realmente existente?

Primeiro, deixe-me dizer que a ideia que tenho sobre o termo “capitalismo realmente existente” é aquilo que realmente existe e que se chama “capitalismo”. Os Estados Unidos é o caso mais importante, por razões óbvias. O termo “capitalismo” é suficientemente vago para cobrir muitas possibilidades. É comummente usado para referir o sistema económico dos EUA, que recebe substancial intervenção estatal, indo desde a inovação criativa até àquela apólice governamental de seguro para bancos, “demasiado-grande-para ir à falência”, e que é altamente monopolizado, limitando ainda mais a confiança do mercado.

“O capitalismo realmente existente – abreviadamente RECD (pronuncia-se wrecked) – é radicalmente incompatível com a democracia”.

Vale a pena ter presente a escala dos pontos de partida do “capitalismo realmente existente” desde o “capitalismo de livre mercado” oficial. Para mencionar apenas alguns exemplos, nos últimos 20 anos, a parte dos lucros das 200 maiores empresas aumentou claramente, impulsionando o caráter oligopolista da economia dos EUA. Isso mina diretamente os mercados, evitando guerras de preços através de esforços de diferenciação de produto muitas vezes sem sentido através de publicidade massiva, o que está em si dedicado a subverter os mercados no sentido oficial, baseados em consumidores informados a fazerem escolhas racionais. Computadores e Internet, juntamente com outras componentes básicas da revolução das TIC, deram-se em grande parte no setor estatal (I&D, subsídios, concessões e outros dispositivos) durante décadas, antes de serem entregues à iniciativa privada para adaptação aos mercados comerciais e ao lucro. A apólice de seguro governamental, que fornece enormes vantagens aos grandes bancos, foi estimada por alto por economistas e pela imprensa de negócios como sendo talvez da ordem dos 80 milhares de milhões de USD por ano. Contudo, indica um estudo recente do Fundo Monetário Internacional – para citar a imprensa de negócios – que talvez “os maiores bancos dos EUA não fossem realmente rentáveis de todo” acrescentando que “os milhares de milhões de dólares que alegadamente ganharam para os seus acionistas eram quase inteiramente um presente dos contribuintes dos EUA”. Isto são mais provas a apoiar o juízo de Martin Wolf do Financial Times de Londres de que “um setor financeiro fora de controlo está a devorar a economia de mercado moderna a partir de dentro, tal como a larva da vespa aranha come o anfitrião em que o ovo foi posto”.

De certa forma, tudo isso explica a devastação económica produzida pelo capitalismo contemporâneo que você sublinha na pergunta acima. O capitalismo realmente existente – abreviadamente RECD (pronuncia-se wrecked [destruído]) – é radicalmente incompatível com a democracia. Parece-me improvável que a civilização possa sobreviver ao capitalismo realmente existente e à democracia severamente atenuada que vão de par. Poderá a democracia em funcionamento fazer alguma diferença? A consideração de sistemas inexistentes só pode ser especulativa, mas acho que há alguma razão para pensar assim. O capitalismo realmente existente é uma criação humana e pode ser alterado ou substituído.

O seu livro mais recente, Masters of Mankind, que saiu em setembro através da Haymarket Books, é uma coleção de ensaios escritos entre 1969 e 2013. O mundo mudou imenso durante este período e então a minha pergunta é a seguinte: o seu entendimento sobre o mundo mudou ao longo do tempo, e, em caso afirmativo, quais foram os eventos mais catalíticos na alteração da sua perspetiva sobre a política?

“O poder hierárquico e arbitrário permanece no núcleo da política no nosso mundo e fonte de todos os males.”

A minha compreensão do mundo mudou ao longo do tempo, à medida que aprendi muito mais sobre o passado e que os eventos em curso regularmente adicionam novos materiais críticos. Realmente não posso identificar eventos ou pessoas singulares. É cumulativo, é um constante processo de repensar à luz de novas informações e de ter mais em conta o que eu não tinha entendido devidamente. No entanto, o poder hierárquico e arbitrário permanece no núcleo da política no nosso mundo e permanece a fonte de todos os males.

Numa interação recente que tivemos, exprimi o meu pessimismo sobre o futuro da nossa espécie. Você respondeu, dizendo “compartilho a sua convicção, mas continue a lembrar-se da frase dos Analectosi que citei de vez em quando, definindo a pessoa ‘exemplar’ – presumivelmente o próprio mestre: ‘aquele que continua a tentar, embora saiba que não há esperança’.” A situação é tão terrível assim?

Não podemos saber com certeza. Contudo, o que sabemos sim, é que se sucumbirmos ao desespero estaremos a ajudar a garantir que o pior vai acontecer. E se agarramos as esperanças que existem e funcionam para fazer o melhor uso delas, poderá haver um mundo melhor.

Nem há muito que escolher.

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