Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
CHRISTOPHE BOURSEILLER: Rebeldes libertários e tentação totalitária
Entrevista conduzida por DAOUD BOUGHEZALA
CHRISTOPHE BOURSEILLER é ensaísta, escritor e actor, especialista principalmente sobre os extremismos. O seu último livro é: Les Faux Messies. Histoire d’une Attente (POCKET).
Causeur nº 17, Outubro de 2014
A fatwa lançada contra Marcel Gauchet[1] por Édouard Louis e Geoffroy de Lagasnerie[2] não é anedótica. Recusando debater nos Rencontres de Blois, estes rebeldes autoproclamados estes revelam a falência extrema de uma esquerda desnorteada pela falência do socialismo real. Por incapacidade de reinventar o marxismo, os herdeiros de Foucault e de Bourdieu ressuscitam o estalinismo[3].
DAOUD BOUGHEZALA.
NUMA TRIBUNA PUBLICADA NO JORNAL LIBÉRATION EDOUARD LOUIS E GOFFROY DE LAGASNERIE EXPRIMIRAM A SUA RECUSA EM DEBATER COM MARCEL GAUCHET NOS ENCONTROS DA HISTÓRIA EM BLOIS SOBRE A REBELIÃO, COM O PRETEXTO DO SEU PRETENDIDO CONFORMISMO IDEOLÓGICO[4]. SERÁ QUE SE COMPREENDE ESTA POSIÇÃO?
CHRISTOPHE BOURSEILLER. Eu não imagino que haja intelectuais a poderem-se mostrar refractários a um debate de ideias. Se não estão de acordo com Marcel Gauchet, que o digam então, que expliquem as suas razões! O que faz o interesse de um debate, é precisamente o choque das ideias contraditórias. Se a fricção não existir, morre-se de aborrecimento, o que acontece hoje e cada vez com mais frequência, tanto a França está a morrer de atonia..
Édouard Louis e Geoffroy de Lagasnerie parecem considerar que as teses defendidas por Gauchet são deste ponto de vista de tal modo discutíveis que não se saberia como as discutir. Há já alguns anos, a extrema-esquerda recusava debater com a extrema-direita. Os seus opositores têm Gauchet como um neofascista? Não o posso crer. Dito isto, recordo-vos que Édouard Louis e Geoffroy de Lagasnerie são frequentemente considerados como discípulos de Pierre Bourdieu. Ora, Bourdieu ostracizava os pensadores que não estavam de acordo com ele. É pelo menos o que Edgar Morin afirma no seu Jornal. Este teria sofrido por ter sido “des-convidado” em colóquios, a pedido de Pierre Bourdieu.
ESTA EXCOMUNHÃO DO ADVERSÁRIO TEM RAIZES IDEOLÓGICAS?
A prática evoca a do PCF da época estalinista. É também verdade que Bourdieu foi lido e retransmitido na Universidade por trotskistas que admiravam o seu trabalho sobre a miséria do mundo e a sua Sociologia da classe operária. Estes terão relativamente confiscado o seu pensamento. Como os seus inimigos estalinistas, de que eles partilham a sua herança leninista, os trotskistas posicionam-se de boa vontade como os únicos detentores “da” verdade, e os únicos guardiães da chama revolucionária. Observa-se hoje em dia o retorno de práticas leninistas?
MAS ESTES “BÉRIA DE SACO DE AREIA ”, COMO OS BAPTIZOU ELISABETH LÉVY, NÃO TÊM CONTAS A DAR AO MAIS PEQUENO COMITÉ CENTRAL. LOUIS E LAGASNERIE RECLAMAM-SE MENOS DE TROTSKI DO QUE DE FOUCAULT…
E neste sentido, seriam eles menos classificáveis? Michel Foucault ele mesmo Comissário nos anos 1970 com a Gauche Prolétarienne, um grupo maoista do qual foi “ companheiro de percurso”. A extrema-esquerda produz de toda a maneira curiosas misturas ideológicas. Por exemplo, fico sempre surpreendido ao ver anarquistas participarem “ nas manifestações em defesa de Gaza”, enquanto que o anarquismo se opõe- tanto ao Estado –seja ele de Israel ou da palestina – como à religião – “nem Deus nem soberano! ”
O problema é que há todo um sector do arquipélago libertário que agora está imbuído de valores trotskistas. Olivier Besancenot também se reclama da anarquista comunista Louise Michel, quando esta veio de uma corrente que celebra Trotsky, o assassino de Cronstadt, um feroz inimigo dos anarquistas… A preocupação da modernização ideológica passa através de preocupantes hibridações.
A fatwa lançada contra Marcel Gauchet por Louis Édouard e Geoffroy de Lagasnerie não é anedótica. Recusando-se a discutir nos Rencontres de Blois, estes rebeldes auto-proclamados revelam a falência de uma extrema-esquerda desnorteada pela falência do socialismo real. Sem ser capaz de reinventar o marxismo, os herdeiros de Foucault e de Bourdieu geraram o estalinismo.
NA SUA MITOLOGIA, A CAUSA “ HOMOSSEXUAL” OCUPA UM LUGAR DE DESTAQUE. AO ERIGIREM-SE COMO OS ÚNICOS REPRESENTANTES LEGÍTIMOS DO PROGRESSISMO GAY, ESTES ACTIVISTAS DE CASAMENTO E DOS FILHOS PARA TODOS PROMOVEM-ELES OU NÃO A MORAL BURGUESA?
Quando ela eclodiu na década de 1970, a causa homossexual fazia parte da contracultura, os seus defensores mostravam-se hostis para com o patriarcado, bem como para com o casamento. Hoje, a causa gay passa, ao contrário, a defender os valores do casamento e da família. Vamos ver se amanhã não iremos ver os activistas homossexuais a defender também o trabalho e a pátria? É dificilmente defensável pretender encarnar uma rebelião contracultural ao mesmo tempo que se defendem os valores familiares. Os defensores do casamento gay devem saber tirar as lições deste seu envolvimento e assumir a sua adesão à ordem patriarcal tradicional.
O QUE TERIA UMA ENORME DIFUSÃO NO PAÍS DOS REBELDES! SE SE ACREDITA NOS CONSPIRADORES DE BLOIS, TODO O HOMEM DE ESQUERDA DEVERIA CONTESTAR A ORDEM ESTABELECIDA, SEM QUE SEJA DISCUTIDO O BEM-FUNDADO DA SUA ABORDAGEM. ESTE SENTIMENTO INTRANSITIVO DE REVOLTA NÃO ESVAZIA ELE A REBELIÃO DO SEU SIGNIFICADO?
Obviamente, o termo rebelde levanta um problema. Como designar o nome de todas as correntes contestatárias? No final da década de 1980, eu tinha proposto num livro homónimo de os designar por “inimigos do sistema”. Para lá de diferenças ideológicas, o que une as extrema-direitaa, as extrema-esquerdas e os movimentos não classificáveis é a rejeição do sistema actual. O consenso pela negação. No entanto, o conceito rapidamente me pareceu insuficiente, e eu preferiria trabalhar mais tarde sobre a ideia de “extremismo”. Em paralelo, temos visto aparece no campo da investigação o conceito de “rebelde”. Em 1999, Emmanuel de Waresquiel publicou um livro sobre o século XX intitulado O século rebelde. Neste trabalho colectivo, tratava simultaneamente do sindicato SUD, dos situacionistas, de José Bové, da Action française, dos intermitentes do espectáculo etc. Da leitura deste ensaio, fiquei impressionado com a heterogeneidade da noção de rebelde, em que colocamos tudo e nada.
DEDUZO DO SEU MAL-ESTAR QUE É IMPOSSÍVEL DEFINIR UMA QUALQUER ESSÊNCIA DA REBELIÃO, A QUAL TALVEZ NÃO SEJA MAIS DO QUE UM RÓTULO AUTO GRATIFICANTE?
O rebelde, é vagamente o que contesta, sem que se saiba se ele se coloca numa perspectiva revolucionária ou reformista: se não estou contente e que eu berre junto a um semáforo, torno-me num rebelde. O contribuinte em cólera encontra-se colocado ao mesmo nível que os djihadistas das decapitações. Pierre Poujade, Che Guevara, Guy Debord, José Bové e Ben Laden encontram-se assim colocados no mesmo saco. Em qualquer caso, este termo mínimo serve apenas para etiquetar um arquipélago heterogéneo. Prefiro, pela minha parte, interrogar-me sobre o extremismo. Como o qualificar? Existem ideias propriamente extremistas ou o estudo do extremismo reduz-se à uma Sociologia dos comportamentos? O debate está aberto.
POR PREOCUPAÇÃO DE OBJECTIVIDADE, MAIS DO QUE DE REBELDES OU EXTREMISTAS, PORQUE NÃO FALAR DE PENSAMENTOS RADICAIS?
Todo depende da forma como se observam as correntes políticas situadas à margem. Se levamos em conta o seu impacto sobre o que Foucault chamava o épistémè, ou seja o campo cultural, vê-se emergir ao longo dos anos pensamentos radicais que constituem anomalias no seio de cada época. Estas anomalias anunciam bem frequentemente a transição para um outro período histórico. Estas ideias novas desabrocham em correntes políticas já bem referenciadas, mas transcendem-nas. Coloco pois em oposição os pensamentos de Debord ou da Enciclopédia dos danos[5], ambos inclassificáveis no ram‑ram do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste) e dos grupos que se lhe assemelham.
SERÁ QUE A EXTREMA ESQUERDA DEIXOU DE PRODUZIR IDEIAS REALMENTE REVOLUCIONÁRIAS?
A extrema-esquerda política é plural. Eu creio contudo que esta sofre hoje de uma certa esterilidade. Há uma verdadeira crise da alternativa revolucionária. Criticar as injustiças, todos o podem fazer. Mas que se vai pôr no seu lugar? As extrema- esquerdas têm dificuldade em formular uma alternativa nova. Isto significa assim que nos trotskistas se voltam a evocar modelos recentes, que vão da Checoslováquia da Primavera de Praga à URSS de Gorbatchev. Vê-se certamente numerosos pensadores a tentarem renovar o corpus. Penso em Toni Negri, Alain Badiou, em Étienne Balibar ou Slavoj Zizek. Estes teóricos que tentam ultrapassar o marxismo satisfazem-se em tornar a vestir Marx mas com roupas novas. Por detrás das suas ruidosas fórmulas, permanece a ideia de que uma classe capitalista e burguesa oprime uma classe proletária e que consequentemente é necessário encarar a necessidade de uma revolução socialista. Regressamos sempre a esta mesma noção da qual nunca se sai, a luta das classes, que alimentou tanto esperança e tanta injustiça.
ENQUANTO A ESQUERDA DA ESQUERDA VATICINA NO VAZIO, O SOCIALISMO DE GOVERNO INTEGROU TOTALMENTE A SOCIEDADE DE MERCADO, AO PONTO QUE SE TEM DIFICULDADE EM DISTINGUIR ESTE SOCIALISMO DA PRÓPRIA DIREITA. RELATIVAMENTE À SUA MEMÓRIA DE HISTORIADOR DE IDEIAS, SERÁ QUE JÁ OBSERVOU UMA TAL DEGENERESCÊNCIA DA ESQUERDA INTELECTUAL E POLÍTICA?
Isto não é novo. Desde a sua origem, o socialista actual tem estado dividido entre extremistas e moderados, chamado “possibilistas”. Mais tarde, Jules Moch, Guy Mollet, Michel Rocard, Olaf Palme ou mais recentemente Tony Blair engoliram torrentes de insultos devido ao seu pragmatismo e à sua moderação. Actualmente, observo um certo arcaísmo pós-marxista no Partido Socialista que se incarna na proliferação das correntes “à esquerda”. A presença influente dos críticos “frondeurs” e de outras correntes à esquerda do PS provam que a social-democracia ainda é hoje estimulada por uma extrema-esquerda que gostaria de a fortalecer e que não renuncia à esperança de “regenerar ” uma formação política que ela designa ainda em 2014 como um “Partido de Trabalhadores”. Arnaud Montebourg e os seus amigos demissionários provam pelo menos que o PS continua a ser irrigado por teses saídas da esquerda da esquerda.
DIR-SE-À QUE A ESQUERDA JÁ SÓ TEM APENAS ALGUMAS CAUSAS SOCIAIS E UMA VAGA MORAL CATÓLICA ANTI-RACISTA A COLOCAR DEBAIXO DOS SEUS DENTES… ESSA OBSESSÃO DE PUREZA VIRTUOSA NÃO SERÁ ELA QUE REÚNE DIDIER ERIBON, EDWARD LOUIS E NAJAT VALLAUD-BELKACEM?
A crise da alternativa revolucionária, que afecta principalmente as extrema-esquerdas, reflecte-se na esquerda moderada. Como conciliar as exigências do mercado com as proclamações eleitorais destinadas a combater a finança? Aos olhos da sua ala esquerda, o governo tem renegado as suas promessas. É ainda ela a esquerda? Esta esquerda oficial traiu o plano social. Ela tentará recuperá-lo a nível da sociedade. O governo tem estado muito em evidência por causa da questão do casamento gay para contrabalançar os aumentos de impostos e a tributação das horas extraordinárias. Provavelmente, a causa do casamento gay foi uma distracção, uma manobra para deslocar o debate para um plano moral. Desde então, vimos prosperar uma “moral de esquerda” que se arroga, e mais do que nunca, do monopólio das questões do coração. Nós conhecemos já “ os restaurantes do coração” ( trata-se de “restaurantes” criados pelo Padre Pierre de apoio aos sem nada). Eis agora “ o governo do coração”. Mas pode-se governar com o coração “?
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