«Neste sul de província deserta, completamente fechado ao
espírito de crítica, e revivendo ainda as crenças lendárias dos
séculos de obscurantismo e de servidão, não admira que aos
episódios da admiração popular ingénua se misturem de quando
em quando uns, mais grotescos, que […] só a muito
esforço de morder lábios não recebem a francas gargalhadas».
– Fialho de Almeida, in Estâncias de Arte e de Saudade.
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Há anos a esta parte, com incrível descaro, sem noção do ridículo nem réstia de bom senso, e estou em crer, sem fiável critério sobre a história da gastronomia alentejana, se assim posso dizer, a Câmara Municipal de Portel (CMP) resolveu alçar a pitéu de 1ª classe a açorda alentejana! Não percebendo que se colocava fora do domínio da seriedade, com as suas penas de pavão a caírem no empedrado de ruas e travessas, entrou pelo despautério dentro e inaugurou o «Congresso das Açordas»!
Fotografia dos anos 50 do séc. XX, arredores de Montemor-o-novo. Pastor comendo (uma açorda?) directamente do seu tarro de cortiça…
A açorda, julgo que sabem os mais avisados, é uma comezaina de ganhão, tradicional “prato” pobre inventado por gente pobre que trabalhava de sol a sol, portanto, algo com respeitável e penosa carga histórica sobre a deficiente nutrição e o ancestral subdesenvolvimento, em que andou mergulhada durante séculos a terra transtagana. Porém, mediante um paleio trafulha, iludindo-se com exagerações, a CMP diz-nos, na sua propaganda para “atrair” desprevenidos forasteiros (julgando ter descoberto novo “el dourado”), que a açorda é «um dos pratos mais emblemáticos da gastronomia alentejana». – Sem dúvida, sem dúvida! Durante séculos, a açorda foi quase o único sustento dos braços dos camponeses, explorados de sol a sol nestes campos do latifúndio!
«Congresso das Açordas»?! – Com um “papel de embrulho” destes, não se poderia ter confundido mais as gentes nem intoxicado tanto o Alentejo… com o anedótico!
Decididamente, a ostentação estapafúrdia de vários cozinhados, que se podem arrolar na “enciclopédia” gastronómica da região, tornou-se uma febril obsessão. Cada vez há mais semanas gastronómicas por ano (a semana do borrego, do porco, do boi, das sopas, etc.). Os certames de gastronomia copiam-se uns aos outros, às vezes acontecem no mesmo espaço de tempo e, promovidos pelas Autarquias, beneficiam de propaganda própria, gastando cada Município ou Junta de Freguesia uns quantos euros em folhetos e cartazes, de forma a atrair os supostos “papa-açordas” de outras terras!
Enfim, com tanto certame gastronómico, repetitivo, maçador, indigesto, mais dia, menos dia havia de acontecer o insólito numa localidade alentejana: – No caso concreto, calhou a vez a Vendas Novas, cuja Câmara Municipal tresvariou em 2004 e, em vez da glorificação da consagrada e arqueológica gastronomia, pegou num “reportório” miniatura e mandou publicitar que na localidade passaria a ter lugar um… «Festival das Bifanas»!
Não admira pois que outro dia tenha aparecido um reputado realizador de documentários a filmar os “praticantes” do cante alentejano, de modo a reforçar a decisão do executivo político da Câmara Municipal de Serpa, que pretende levar até à UNESCO a extravagante solicitação do cante figurar como «património imaterial da Humanidade». Este realizador de um documentário intitulado «Alentejo, Alentejo», que se nos revelou de declarada tendência para antropólogo de povos “esquisitos”, entrevistado pelo semanário Expresso (20/9/2014), confessou-se fascinado por ter «feito algo sobre a identidade alentejana, a identidade de um povo»!
Nós já sabíamos que em Portugal, naturalmente, há evidências históricas e culturais da existência concreta do povo português! – Mas só agora, e através deste documentário, ficamos a saber que além deste milenar povo, no mesmo espaço territorial existem os extravagantes alentejanos, que costumam cantar em grupos masculinos uma espécie de “gregoriano profano”, com tal pitoresco e especial “estranheza” que, ao cabo e ao fim, tudo resulta na «identidade de um povo», diverso do português comum, supõe-se…
Convenhamos, não há razão para admirar que um realizador estrangeiro filme de acordo com esta linha de investigação antropológica… – Afinal de contas, somos o povo sereno e radioso do «congresso das açordas»; somos o povo da infalível cartilha que nos recomenda anualmente um «festival das bifanas»!
Finalmente, saiba-se que o Alentejo é região onde ainda existem executivos políticos autárquicos que têm o hábito das informações testadas “cientificamente”, escrupulosas e sérias. Como por exemplo acontece em Santiago do Cacém…
Uma senhora investigadora da Universidade de Wuppertal (Alemanha), proprietária de herdade onde se pratica «turismo ecológico» (?), em Aldeia dos Chãos (Santiago do Cacém), veio de comunicar os primeiros resultados de uma investigação “pioneira” em Portugal (desde Viriato que, na Lusitânia, tudo é pioneiro!) sobre a luz solar naquela área. Entretanto, um cavalheiro alemão, colega desta científica senhora, garante que as propriedades da luz solar em Santiago do Cacém são muito diferentes das que existem na Alemanha (extraordinário!) e, por isso, neste espaço alentejano, as pessoas tem uma saúde melhor que as de outras regiões. Segundo a proprietária da turística e ecológica herdade, é «importante saber que há um lugar com benefícios para o bem-estar das pessoas, para a sua saúde e até para atrair investimentos» (que coincidência… para o investimento turístico feito aqui por esta senhora!).
Caríssimos compatriotas, que grande e inesperada beneficência está a ser proporcionada… pelo “astro-rei”: – Santiago do Cacém tem uma luz solar exclusiva que, suplementarmente, é fonte de saúde, boa para o ritmo cardíaco, a tensão arterial, e, vejam lá, até ajuda a eliminar a depressão!
Não nos deve espantar, pois, que um lúcido e prestante vereador, o senhor Albano Pereira, membro do actual executivo político autárquico, pretenda dar forma administrativa ao fenómeno, introduzindo a luz solar, por meio de um diploma específico, no nosso sistema burocrático. Como? – Levando a cabo a «certificação da luz solar de Santiago do Cacém»! Enfim, a luz solar deve, com paciência e submissão, obedecer ao interesse público do Pais, do Alentejo, de Santiago do Cacém!
Todavia, aqui deixamos uma reflexão amável, dirigida aos investigadores científicos germânicos e à lusitana vereação da Autarquia de Santiago do Cacém…
Se por qualquer “fuga de informação” os países da Península da Escandinávia (Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca), bem como o norte do Canadá e da Rússia, alcançarem algum conhecimento sobre esta possibilidade (de certificação da luz solar), aventada pelo senhor Albano Pereira de Santiago do Cacém, e, em consequência, moverem empenhos e empregarem as suas vastas disponibilidades diplomáticas para, por sua vez, certificarem o seu «sol da meia-noite», fenómeno que ocorre entre Abril e Setembro, isto é, o período em que o sol não se põe *nessas regiões, podendo assim provocar um engarrafamento de pedidos de certificado na respectiva secretaria, desorientarem os funcionários “solares” e, no fim de tudo, banalizarem este tipo de documentos de tal modo que, agastado e com incómodos gástricos, o Sol nunca mais olhe para nós com o mesmo carinho!
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* É conhecido que inclinação do eixo da Terra em relação ao plano da sua órbita, faz com que a luz solar incida quase perpendicularmente sobre os pólos, durante seis meses em cada ano, nos países e regiões indicadas.



Pois é!…verdade nua e crua….
“Nada mais assustador que a ignorância em acção.” Goethe