CONTOS & CRÓNICAS – A mulher que via passar os comboios (excerto de “Novas Viagens na Minha Terra”) – por Manuela Degerine

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Cheguei ontem de Santiago de Compostela. Neste momento desço a Almirante Reis, atenta a quem por mim passa, não apenas por, nesta avenida, a atenção ser necessária, mas igualmente por curiosidade. Não conheço em Paris nada que se assemelhe a esta avenida… Há as prostitutas, não apenas as profissionais do Largo do Intendente que, não raro, vão e vêm, mas também uma ou outra, em fim de carreira que, de vez em quando, tenta por aqui o negócio; e, claro, lá em baixo, na esquina da Rua da Palma com a de S. Lázaro, encontram-se várias de serviço. Há os clientes. Há os chulos e seus assessores. Há os sem-abrigo, cuja cantina se situa em frente da igreja dos Anjos e, por esta razão, pouco daqui se afastam. Há os drogados, com ou sem abrigo, arrumadores ou não de carros, muitos discretos, alguns excitados, não poucos buscando financiamento, outros alheios a qualquer realidade, um parece dormir no meio do passeio, uma arruma o entulho dentro do contentor… Há os vendedores de droga e seus adjuvantes. Há os bêbedos que transbordam das tascas para o passeio. Há romenos assaltando os passantes e romenas arrecadando a receita. Há comerciantes chineses e indianos, há clientes indianos e chineses. (Não confundir os romenos com os indianos. Quanto às romenas e indianas, exclui-se qualquer confusão.) Há os chineses das limousines e seus guarda-costas. Há africanos de todas as origens, atraídos por acasos, tráficos e convívios. Há as brasileiras novas com portugueses velhos. Há as donas de casa. Há os clientes dos cafés, cervejarias, restaurantes e marisqueiras. Há os turistas dos hotéis. Há brasileiros de chinelo, senhoras de chapéu, gente tatuada e perfurada. Há pais que vão buscar os filhos à escola. Há o arquivo fotográfico, seus artistas, técnicos e visitantes. Há a Misericórdia, há as associações. Há os empregados e clientes de supermercados, lojas de fruta, material de cozinha, electrodomésticos, bugigangas, móveis novos e em segunda mão, roupa nova e em segunda mão… Para abreviar, digamos: há de tudo nesta avenida.

 

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