Foi no dia 1 de Novembro de 1755, um grande terramoto flagelou Lisboa, à época uma das maiores cidades da Europa, com mais de 250 mil habitantes. O número de vítimas varia de fonte para fonte, oscilando entre as 10 e as 100 mil. Uma tão grande colmeia humana destruída em minutos por uma força que o engenho dos homens não tinha capacidade para enfrentar, desencadeou uma onda universal de reflexões. Cientistas, filósofos, poetas, teceram as suas considerações sobre os motivos e as consequências da catástrofe. No epicentro da História, um homem, com firmeza serena, encarou a reparação do desastre como uma tarefa. E começou, logo no mesmo dia, a desempenhá-la.
“Enterrar os mortos e cuidar dos vivos” terá dito Sebastião José. Os cadáveres insepultos seriam focos de infecção susceptíveis de aumentar o número de vítimas; os vivos estavam sem abrigo e alguns encarcerados nas ruínas. Mobilizado o Exército, patrulhas militares percorriam incessantemente a cidade destruída, procurando resgatar pessoas soterradas. Os miseráveis que logo apareceram em bandos, para roubar o que, entre ruínas e desolação, lhes aparecia como dádiva, eram sumariamente executados no próprio local. Nos dias seguintes, a par das operações de limpeza, foi distribuído um inquérito para tentar determinar com o rigor possível a intensidade e as características do sismo. As paróquias tiveram a seu cargo a distribuição e recolha do formulário – ainda hoje, o carácter objectivo das perguntas é salientado por historiadores e sismólogos. Sabe-se como, com arquitectos e engenheiros militares, projectou a reconstrução de Lisboa, a primeira cidade do mundo a integrar medidas anti sísmicas na engenharia civil – usando o sistema de gaiola na estrutura dos edifícios.
Enfim, muito se pode dizer sobre o que Sebastião José de Carvalho e Melo, recém investido no cargo de chefe do Governo, fez perante uma catástrofe de dimensões inusitadas. Terá cometido erros, excessos, abusos do poder? Por certo que sim. Mas não podemos julgar figuras do passado à luz de conceitos actuais. Talvez, desde D. João II não tenha havido governante tão excepcional como o foi o Marquês de Pombal. Luiz Pacheco definiu-o como «um ditador de esquerda». Na época de Pombal não existia o conceito de esquerda. Digamos que foi um homem determinado e que usando o princípio de que os príncipes existem para servir o povo e não para o explorar, identificou o poder real com o interesse popular – a nobreza crápula e parasitária não tinha lugar. Algumas vezes se comparou Salazar a Sebastião José – grande ofensa à memória do ministro de D. José I. A similitude apenas existirá na frieza com que ambos tomavam decisões. Salazar oprimiu em benefício de famílias que ainda hoje andam por aí. Os «távoras» que consomem, que roubam milhares de milhões de euros. Impunemente.
Um grande homem, o Marquês.
