29 de Outubro de 2014
Diretor do Instituto de Ciências Sociais (ICS) censura e manda destruir revista da instituição por ter fotos de murais anti-austeridade | Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis
O diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, José Luís Cardoso, mandou destruir a publicação da revista “Análise Social” porque tinha um artigo com fotos de murais anti-austeridade.
O artigo de Ricardo Campos intitulado “A luta voltou ao muro” foi classificado pelo diretor do ICS como de «mau gosto e uma ofensa a instituições e pessoas que eu não podia tolerar». Por isso mandou retirar o número 212 da revista.
O diretor da Análise Social, João Pina Cabral, é claro sobre este comportamento: “é um gesto de censura”. E esclarece «o ensaio visual em causa contém fotos de grafittis de rua da zona de Lisboa que refletem a frustração popular que se vive em Portugal contra as políticas de ‘austeridade’ atualmente em vigor na União Europeia, sendo acompanhado de um texto de Ricardo Campos [sociólogo que estuda estas manifestações gráficas] onde se elabora uma breve genealogia desta forma de expressão».
É a primeira vez, desde 1963, que a revista interrompe a sua publicação.
Este é um caso grave, porque a censura é realizada contra a visualização de uma expressão popular anti-austeridade. Tentar calar na academia um trabalho que assinala o grafitti como um modo de contestar a austeridade é absolutamente inaceitável, para mais quando se trata de um diretor de um instituto de estudos sociais.
Dá vontade de dizer que não só os sacrifícios que têm de ir para o caralho.
Vê notícia TVI e lê o ensaio do investigador Ricardo Campos que acompanha os graffitis:
A luta voltou ao muro
A escrita no muro de forma não autorizada, vulgo graffito, é uma prática antiga. Há exemplos da sua existência que remontam à antiguidade clássica, na Roma antiga ou em Pompeia. Comum a estas formas de expressão de índole vernacular é a recorrente veia satírica e contestatária das mensagens. A afronta ao poder e aos bons costumes tem encontrado no muro e nas formas anónimas de comunicação um reduto altamente criativo. Especialmente relevantes são os graffiti executados no espaço público, disponíveis para uma incomensurável plateia. A falta de identificação de um destinatário particular torna esta forma de comunicação ainda mais curiosa, assemelhando-se às estratégias comunicativas da propaganda política e da publicidade. Ao invés destas, o graffiti é executado pelo cidadão comum, geralmente na obscuridade.
Na nossa história mais recente alguns exemplos históricos mere- cem destaque, pela forma como foram marcando os nossos imaginários. Aquilo que atualmente encontramos impresso nas nossas cidades não pode ser apartado dessa linhagem histórica. Joan Gari, académico catalão que escreveu uma excelente obra sobre a semiologia do graffiti contemporâneo, identifica basicamente duas tradições: a europeia e a norte-americana. A europeia teria por característica principal a escrita, em forma de máxima, de natureza poética, filosófica ou política. Exemplo máximo dessa tradição seria o tipo de graffiti que emergiu durante o Maio de 68 francês. Por contraste, a tradição norte-americana está fortemente vinculada à cultura de massas e à sua iconografia pop, sendo marcada por uma expressão eminentemente figurativa e imagética.
As cidades portuguesas, principalmente os grandes centros urbanos, foram invadidas nas últimas décadas pelo graffiti de tradição norte-americana. Composto por tags, throw-ups e murais figurativos de grandes dimensões, esta é uma manifestação visual que faz hoje parte da nossa paisagem. A globalização deste formato de graffiti significa que, disperso pelo planeta, encontramos uma linguagem comum, com mecanismos de produção e avaliação estética idênticos. A hegemonia desta expressão mural não nos deve fazer esquecer aquela que é a manifestação mural mais marcante da nossa história recente: o mural pós-revolucionário. O período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974 foi marcado por uma profusão de propaganda política que recorria ao muro como principal suporte. A iconografia de então, em que se destacavam Marx, Lenine ou Mao, acompanhados por representações colectivas do povo, do operariado ou campesinato, cedeu paulatinamente o lugar aos politicamente inconsequentes tags.
Porém, nos últimos anos parece ter despontado nas paredes uma nova vontade de comunicação política. A grave crise económica e social que eclodiu em função das fortes medidas de austeridade impostas pela coligação de governo psd-cds, parece ter mobilizado os cidadãos para atuarem politicamente à margem dos mecanismos convencionais de expressão da vontade política. As grandes manifestações que se realizaram nos últimos anos, organizadas por associações e coletivos não-partidários são um bom exemplo disso. As paredes parecem, também elas, servir cada vez mais para expressar não apenas uma revolta difusa, mas para acicatar o poder político, satirizar a classe partidária e afrontar o status quo. Através de palavras, de slogans, de murais pintados a aerossol ou através da técnica do stencil, vários são os exemplos destas manifestações que pude recolher nas ruas de Lisboa. As imagens fotográficas que aqui se reproduzem visam, precisamente, retratar esta dinâmica de manifestação popular.
Ricardo Campos
Cemri-Universidade Aberta
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Ver o original em:
Ver também:
http://expresso.sapo.pt/censura-ou-irrelevancia-analise-social-retida-pelo-diretor-do-ics=f895789


Há que protestar, que lutar contra a estupidez autoritária. Este lamentável episódio demonstra quão próximo estamos de uma circunstância política totalitarizante, pois as decisões de quem governa e o modo como essas decisões são construídas, através do (ab)uso de uma “ditadura de maioria”, destituída de consciência da sua efemeridade e torpemente convicta da total identificação dos interesses particulares dos seus verdadeiros mandantes com o interesse nacional – à semelhança de Salazar e seus sequazes – são o caldo de cultura ideal para a multiplicação de acontecimentos como este, ridículos mas nefastos.
O elevado nível de estupidez e incultura do director do ICS, inequivocamente revelado pelas suas indigentes justificações deste acto de censura, torna absolutamente expectável que o ensaio de Ricardo Campos não ultrapasse as fundas trincheiras, de rija areia de ancestral boçalidade, em que se acoita a respectiva massa encefálica. Apesar de o ensaio ter (também) o mérito de não recorrer a desnecessárias complicações expositivas, adivinha-se que o sô director não possui lastro intelectual para o perceber: poderá ser (o sô director) um acumulador de erudição de elevada capacidade de armazenamento (como acontece com a esmagadora maioria dos gestores, economistas, comentadores e outros parasitas que por aí pululam, formatados em prestigiadas fábricas de autómatos, ainda apodadas de “universidades”), mas falta-lhe o interruptor que ligue o fluxo de energia cultural indispensável à compreensão e transformação criativa do conhecimento empilhado…
Por outro lado, e puxando a brasa à minha… abrasiva sardinha teórica, o episódio também demonstra que a mais espessa imbecilidade – com as consequentes incultura e incompetência – é transversal a todas as profissões, estratos sociais e cargos (de cantoneiro municipal à chefia de um qualquer Estado). Como acontece, aliás, com a inteligência e a cultura, o que origina frequentes colisões entre níveis hierárquicos diferenciados, quando a competência se apresenta invertida…
Ao “incontornável” desempenho recente de um tribunal superior especializado em sexologia, junta-se, no espaço de poucos dias, o do director de um instituto universitário consagrado “à investigação e à formação avançada”!
Há que aceitar e interiorizar esta dura realidade, cientificamente comprovada pela ocorrência extremamente elevada de episódios similares, para encontrar meios que permitam, apesar dela, abrir caminho a uma civilização efectivamente evoluída e democrática, coisa de que, actualmente, mais não temos que uma risível caricatura.