GIRO DO HORIZONTE – UCRÂNIA – por Pedro de Pezarat Correia

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No último GDH (27 out) destacámos uma série de contradições que, em nossa opinião, têm marcado as opções estratégicas das potências ocidentais, nomeadamente da que determina as decisões, os EUA e que contribuíram para que o Golfo Pérsico alargado chegasse à situação caótica atual. São várias pistas a justificarem futuras abordagens nesta página. Pegarei hoje numa, geoestrategicamente marginal no contexto do Golfo Pérsico e que, paradoxalmente, alimenta fatores de conflito e de rutura numa segunda frente exatamente quando é urgente uma convergência para enfrentar a ameaça principal, o Estado Islâmico (EI). A forma como o Ocidente conduziu a crise ucraniana abrindo uma frente de conflito com a Rússia, quando o esforço estratégico se devia centrar no Golfo onde a Rússia se perfila como um parceiro potencial e indispensável, constitui um grave erro estratégico.

O problema tem raízes no passado recente, no fim da Guerra-Fria (GF), na implosão do Pacto de Varsóvia (PV) e da URSS e na ânsia com que os EUA correram em conquista do estatuto de potência imperial num mundo globalizado e unipolar. A OTAN, que já fora o seu instrumento militar enquanto potência liderante do bloco ocidental no mundo bipolar da GF, deveria continuar a sê-lo agora ao serviço da estratégia global e, para isso, tinha de se alargar.

Nas primeiras negociações para a unificação alemã, já com a URSS em claro recuo estratégico, os EUA comprometeram-se com Gorbachev a não estenderem a OTAN até às fronteiras da Federação Russa. Porém, consumado o desmembramento da URSS e com os seus antigos aliados no PV a serem seduzidos e solicitarem a adesão à OTAN, Washington fez tábua rasa dos compromissos. Em 1999 e 2004, apesar dos protestos de Moscovo, a OTAN abria as portas a todos os Estados da Europa central e oriental que haviam pertencido ao PV e mesmo a três saídos da URSS, os Estados Bálticos, atingindo assim as fronteiras da Rússia. Ofensiva que começara com a administração Clinton e em plena crise nos Balcãs quando a Rússia, sob a liderança de Boris Yeltsin, completamente desacreditado e sem qualquer capacidade de resposta às provocações ocidentais, atingia o nadir do seu recuo estratégico pós-GF.

Quando a Rússia, com Putin, começou a reassumir iniciativa estratégica procurando recuperar o estatuto de grande potência, integrou o grupo dos países emergentes, BRICS (Brasil. Rússia, Índia, China e África do Sul) e retomou o projeto euroasiático para, com a China, Índia e Irão, conter o avanço ocidental, deixava de ser um parceiro passivo e manipulável.

Na Cimeira de Bucareste, em 2008, a OTAN, ao ensaiar novo passo no alargamento até às fronteiras da Rússia e aos seus espaços de influência histórica, afirmando mesmo que a Geórgia e a Ucrânia se tornarão membros da Aliança, encontra o Kremlin já apto a reagir. A Guerra dos Cinco Dias na Geórgia, em 2008, foi a resposta e o aviso para o que poderia seguir-se. O golpe de Kiev em Fevereiro deste ano, fomentado e apoiado pelo ocidente, nomeadamente por Washington, que derrubou um poder democraticamente eleito e favorável à Rússia, foi encarado por Moscovo como uma inadmissível interferência externa num Estado soberano. A reação de Putin foi um remake da Geórgia mas ampliado, pois além de provocar cisões internas anexou a Crimeia, frustrando o projeto da OTAN de aí instalar uma base aero-naval no Mar Negro. O peão do alargamento à Ucrânia começou por ser a União Europeia (UE) mas para a Rússia a UE é o cavalo de Tróia para a entrada da OTAN.

Esta tese não é de um “anti norte-americano primário”, como alguns estarão já prontos a gritar. Analistas e académicos de peso, nos EUA, subscrevem-na por inteiro.

John Mearsheimer, professor de ciência política na Universidade de Chicago, publica um artigo na revista de referência Foreign Affairs de September/October 2014, “Why de Ukraine crisis is the west’s fault” onde é muito claro, «[…] os Estados Unidos  e os seus aliados europeus partilham a maior parte da responsabilidade pela crise. A raiz do conflito é o alargamento da OTAN, o elemento central de uma ampla estratégia para separar a Ucrânia da órbita russa e integrá-la no ocidente». E, mais à frente, «Foi um disparate a tentativa dos líderes dos EUA e europeus para tornarem a Ucrânia uma fortaleza ocidental na fronteira da Rússia». Mearsheimer lembra que, face à declaração de Bucareste, Moscovo advertiu que a aliança estava a cometer um grave erro estratégico, que Putin classificou como uma “ameaça direta” à Rússia. Diplomaticamente sabe-se o sentido destas palavras. E Putin falou claro, «[…] se a Ucrânia for aceite na OTAN deixará de existir». Para o Kremlin, se o ocidente tiver êxito na Ucrânia e na Geórgia, a Rússia será o próximo alvo.

Outro respeitado analista norte-americano, George Kennan, aliás citado por Mearsheimer, o célebre autor do “long telegram” que esteve na origem da “estratégia da contenção” na GF, reagia em 1998 à aprovação da expansão da OTAN para leste chamando-lhe um erro trágico que provocaria uma crise.

De facto, quando era importante na ampla frente contra o EI, que a própria Casa Branca colocou no topo das ameaças atuais, contar com a Rússia, alvo direto do EI e bom interlocutor com dois Estados com os quais o ocidente dialoga mal e que estão no centro do furacão, o Irão e a Síria, tudo o que menos se precisava era desta crise com a Rússia e da abertura de uma frente de guerra no leste europeu. Depois do gritante erro estratégico de Bush na agressão ao Iraque em 2003 este, de Obama, segue-se-lhe em dimensão negativa.

Mearsheimer entende que há solução para a crise ucraniana. Num mundo onde ainda domina “realpolitik”, o ocidente tem de aceitar que, tal como ele próprio tem zonas tampão que não admite ver transformadas em ameaças diretas nas suas fronteiras, as outras grandes potências também podem invocar esse direito. A “realpolitik”, segundo a qual o Estado-nação continua a ser o ator central das relações internacionais, não será abandonada unilateralmente. O leste europeu e o Cáucaso do sul são zonas tampão onde Moscovo não pode ver instaladas ameaças diretas às suas fronteiras. Aceita ter aí países soberanos e independentes mas neutrais, não membros de uma aliança militar que a Rússia, com razão, sempre encarou como dirigida contra si. E não parece razoável que a prioridade da defesa do ocidente, hoje, se situe no leste europeu. O que, aliás, só empurraria Moscovo para o reforço do projeto euroasiático.

Um dos pilares da estratégia é a definição de prioridades. O seu falhanço pode arrastar custos irrecuperáveis.

2 de novembro 2014

3 Comments

  1. Como sempre, uma análise lúcida, clara, apoiada no conhecimento da História – neste caso recente -, que muitos teimam em esquecer: os compromissos dos EUA com Gorbatchev, o verdadeiro golpe de estado que os “insurrectos da Praça Maidan” consumaram contra um governo eleito democraticamente (se tal acontecesse em Portugal, onde sofremos a ditadura de uma maioria neo-liberal que constantemente ofende a Constituição, que aconteceria?) e com o apoio expresso da UE, através da presença da sua Representante para as Relações Exteriores, Catherine Ashton (se isto não é intromissão na política interna de um país, o que será?) Acrescento, apenas, no que à História se refere, que a “anexada” Crimeia foi conquistada pelo Império Russo ao Otomano em fins do séc. XIX e nunca teve nada a ver com a Ucrânia, a não ser por um capricho de Kruchtchev, inócuo quando a Ucrânia integrava a URSS, mas transferido abusivamente para uma Ucrânia independente por um alcoólico e vígaro de grosso calibre (não esqueço como se apoderou do poder, traindo Gorbatchev), coisa que muitos democratas convictos também vão “deixando passar”…
    Acresce a importância de este artigo nos dar a conhecer outras importantes análises, de académicos norte-americanos, gente atenta e de ideias limpas e não contagiadas por esconsos interesses.

  2. A decadência do império ianque – a feliz decadência ianque – que começou com a derrota no Vietname prossegue e, como não podia deixar de ser, passo a passo, só pratica uma sucessão de erros estratégicos que, gravíssimo – exactamente como o Senhor General esclarece – sem quaisquer contemplações, leva a conflituosidade e a própria guerra a todas as partes do mundo. A OTAN, um braço armado dos ianques, que tem responsabilidades tremendas nas perturbações mundiais,não devia ser uma organização em que Portugal estivesse inscrito mas, infelicidade nossa, a debilidade constitucional nacional é tanta que no Artigo 7ª da Constituição só é preconizada – apenas preconizada – entre outras coisas, a dissolução dos blocos político-militares.CLV

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