Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Para uma convergência económica e social
Conferência por Pierre Concialdi, do IRES (Institut de recherches économiques et sociales)
Membro do Coletivo Economistas Aterrados
(CONTINUAÇÃO)
…
Anexo 1. Convergência e divergência na zona euro: alguns factos estilizados[1]
Para se analisar o grau de convergência ou divergência na zona euro, pode-se ter em conta vários indicadores.
-
Primeiro indicador: o PIB per capita
O gráfico seguinte apresenta a evolução do PIB per capita de diversos países, situando por cada ano o nível deste indicador em relação à média da União Europeia.
De acordo com este primeiro critério, entre 2001 e 2008, a evolução de Portugal foi semelhante à da zona euro, a da Grécia e a de Espanha foi claramente melhor, somente a Itália caiu verdadeiramente ao longo do período, mas muito menos que o Reino Unido, país este que não está submetido ao sistema euro. Neste mesmo período, a França perde 9 pontos e a Alemanha permanece ao mesmo nível relativo. A tendência global não é a divergência entre “Sul” e “Norte”. É sobretudo a partir de 2008 que os desvios se alargam.
-
Segundo indicador: a produtividade horária do trabalho
Tal como com o indicador precedente, os dados são relativos à média da União Europeia (União Europeia 27=100). Até 2008 ou 2009, Portugal, a Grécia e a Espanha “convergem” para o nível da zona euro, a Itália degrada-se face à média, a França sofre uma regressão ligeira, a Alemanha estagna mais ou menos entre 2001 e 2009. Os resultados obtidos mostram uma evolução muito vizinha dos resultados obtidos com o indicador precedente e não fazem aparecer nenhuma divergência dos países do Sul; é sobretudo o contrário que se poderá observar.
-
Terceiro indicador: a taxa de desemprego
A confirmação da convergência é aqui muito mais evidente, pelo menos até 2007. A taxa de desemprego diminui particularmente em Espanha, Itália, bem como na Grécia. Em 2005 e 2006, dentro deste grupo de países é na Alemanha que esta taxa é mais elevada.
-
Quarto indicador: as dívidas públicas
Utilizamos aqui o rácio entre o volume da dívida pública e o PIB[2].
O principal resultado verificado tem a ver, tal como os outros indicadores, com a rutura observada depois de 2008, mas com uma amplitude bem mais forte. Até 2008, Portugal estava na média da zona euro, ao nível da Alemanha. Quanto à Espanha, o seu nível da dívida pública baixava, o que na época fazia da Espanha “o aluno exemplar” da União Europeia. A Grécia e a Itália tinham claramente níveis de dívida mais elevados que a média, mas sem nenhuma tendência nítida à subida devido a um fraco efeito de “bola de neve”.
-
Quinto critério: a “competitividade”
É sem dúvida o indicador mais complexo a construir e igualmente a interpretar. Na verdade, é necessário ter em conta não somente as variáveis de custo (salários, custo do capital), mas também a produtividade, bem como outros fatores mais qualitativos (especialização, nível de gama, qualidade dos produtos). O mesmo é dizer que é necessário interpretar este indicador com grandes precauções. Aceites estas reservas, podemo-nos referir aos indicadores estabelecidos pelos economistas do Natixis[3]. De acordo com estes, a Grécia, a Espanha e Portugal permaneceram fortemente “competitivos” na zona euro, mesmo depois de 2008.
*********
A partir deste conjunto de elementos, é difícil concluir que houve um processo de divergência entre os países do Sul da União Europeia e os do Norte, depois da entrada em vigor da moeda única, ou seja, a partir de 1999. Em contrapartida, existe efetivamente uma rutura significativa depois de 2008. Mas, esta divergência [rutura] é, sem dúvida, mais imputável ao papel dos mercados financeiros e às políticas de austeridade postas em prática na sequência do aparecimento da crise financeira.
________
[1] Os gráficos são retirados da análise proposta por Jean Gadrey. Texto disponível em: http://alternatives-economiques.fr/blogs/gadrey/2014/03/02/l’euro-n’est-pas-coupable-de-la-divergence-economique-des-pays-europeens-12/
[2] Os dados são os do terceiro trimestre de cada ano (Q3) para podermos utilizar os números mais recentes de Eurostat para 2013.
[3] Flash économie n° 124, 13 de fevereiro de 2012. Texto disponível em: http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=62437
________







1 Comment