CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – A DIGNIDADE DE BRITTANY MAYNARD E O ABSURDO DA CÚRIA- por Mário de Oliveira

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O gliobastoma, um tipo de cancro incurável e galopantemente mortal, revela-se no seu cérebro, pouco depois do seu casamento. Todos os projectos que acalenta desfazem-se como bolas de sabão, num viver a curto prazo. O cancro veio para a matar e aos seus projectos. Ocupa o cérebro desta jovem mulher, 29 anos de idade. E Brittany, como o sujeito da sua própria vida, tem uma de duas opções: aceita submeter-se a um tratamento clínico agressivo, que apenas lhe acrescenta uns meses de vida, de atroz sofrimento, ou recorre ao direito pessoal e intransmissível de morrer com dignidade. Britany escolhe morrer com dignidade e, desse modo, mata o cancro que viera para a matar a ela. Anuncia aos familiares, amigos e ao mundo, a decisão de morrer, dia 1 de Novembro. Prepara-se para a morte como se prepararia para o parto do seu primeiro filho que não chegou sequer a ser concebido, porque o gliobastoma, assassino, não gosta da vida, menos ainda, de crianças, a vida em toda a sua transparência. A notícia corre mundo. E, dia 1 de Novembro, Bittany toma o medicamento letal e morre como quem nasce, ao som da música que escolheu para esse momento único e irrepetível. Suicídio? Não! Brittany não desiste de viver. Por amor à vida com qualidade, mata o cancro determinado a matá-la, antes que ela conceba e seja mãe. Morrer, para os seres com consciência, determinados a amar a vida com qualidade, é sempre a afirmação do primado da vida. A morte aparece-lhes como o derradeiro parto que nos faz plena e integralmente viventes. O mundo emociona-se com a decisão consumada de Brittany e curva-se em respeitoso silêncio, perante semelhante afirmação da vida com dignidade. A excepção, cínica e cruel, veio da Cúria romana, na pessoa do presidente da Pontifícia Academia para a Vida. Obtuso, até dizer chega, e já depois de tudo consumado, vem dizer que a morte digna de Brittany é um “absurdo”. É bem o carrasco que ostenta no nome, Ignacio Carrasco de Paula. Mais um tiro no pé da Cúria Romana. Esta sim, um absurdo.

5 Novº 2014

 

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