João Grave conclui no dia 31 de agosto de 1917 uma obra intitulada “Os Sacrificados, contos da guerra”. Encontramos neste volume um texto sobre Joana de Arc e dois sobre a destruição da catedral de Reims – até aqui, tudo bem: Joana de Arc é uma figura mítica (para além de histórica) e a catedral, mesmo reconstruída, continua a ser uma obra-prima. Muito pior é os restantes textos não passarem de estereótipos: a sentinela sacrifica-se pelos camaradas; o escultor perde os braços na guerra mas de imediato se refugia nos da “Irmã Margarida”; a rapariga (abastada) também abraça o namorado, pobre mas superstar, quando, aplaudido pela população, ele regressa amputado; o cobarde acaba enfim por se alistar como voluntário; o doravante cego, paciência, cumpriu o dever; a amada promete – como recompensa – o casamento ao pobre-sem-família quando ele regressar, se… Et caetera. Aqui os ratos não devoram os mortos, o frio não atormenta os vivos, os soldados não têm que tragar (duas vezes por dia) a “corned beef” inglesa, não vêem camaradas a arrastar as tripas antes de morrerem, não arrastam eles as enxergas por caves esburacadas: antes de lhes suceder o mesmo. Aqui a Nação não abandona os seus combatentes nas primeiras linhas. Não. Nada disto. E, quando os homens regressam a casa cegos, amputados, a admiração e dedicação que os rodeia compensam-nos do que perderam. Aliás a guerra é uma oportunidade. A guerra é mesmo uma terapia nacional. Permite – por exemplo – aos artistas a antevisão das obras-primas que, no tempo de paz, não conseguiram criar. É o caso do escultor (Gustavo) em “A maior dor”: “Num minuto, viu, em conjunto e em detalhe, a obra futura em que até aí se gastara sem resultado”[1] – por azar Gustavo perde os dois braços e não poderá realizá-la. E é o caso do compositor (Eduardo) em “Revelação”: “A obra em que durante anos contínuos pensara sempre em vão, surgia-lhe claramente diante dos olhos e do pensamento.”[2] Repetido azar, Eduardo morre, tão-pouco podendo aproveitar a inspiração.
Esquisito… Pensam os leitores. [O que não me surpreende, pois pensei o mesmo.] Esclareceremos estas dúvidas nas próximas crónicas.
(Continua)
[1]GRAVE, João, “Os Sacrificados (Contos da Guerra)”, segunda edição, Livraria Chardron, Porto, sem data, p. 46.
Sou Juan Carlos Postigo e gostaria de traduzir estas entradas de “Cartas de Paris”, sobre “Os sacrificados” de João Grave, por Manuela Degerine, para o prologo de um breve livro que estamos a preparar sobre a Grande Guerra, desde as diferentes perspectivas da literatura europeia. Você me autoriza?
Bom dia:
Sou Juan Carlos Postigo e gostaria de traduzir estas entradas de “Cartas de Paris”, sobre “Os sacrificados” de João Grave, por Manuela Degerine, para o prologo de um breve livro que estamos a preparar sobre a Grande Guerra, desde as diferentes perspectivas da literatura europeia. Você me autoriza?
Muito obrigado. Fico a aguardar a sua risposta.
Cumprimentos,
Juan Carlos Postigo.