Primeiro dia de Novembro. Sai da igreja a voz do padre e dos fiéis “dai-lhes, Senhor, o eterno descanso”.
Pequeno é o dia e longa a melancolia. Finda a procissão, recolhem as cruzes e o sol pálido cai no horizonte.
Poisam os olhos na campa branca com rosas brancas. A brancura do nada. Uma cruz esguia sobre os retratos de ambos e os nomes na pedra nua com datas de nascimento e morte.
Velas brancas tremeluzem e acendem o pensamento que se desprende e foge para além das grades e portões.
Vão comigo nas asas da memória e à luz dos espaços tento vê-los sorrir nas alegrias da vida, ouvir-lhes a voz do amor, a doçura infinita dos seus olhos. E recordo-os em verso porque tinham coração de poeta.
A vida dança a canção do tempo que não volta. Tento fechar os olhos com força sobre as águas do esquecimento e volto ao colo da minha infância onde só há lugar para a vida.
Sinto a energia da inexistência concentrada nas gotas da chuva sobre as pétalas que tomam a transparência do luar. Renego a morte mas ela está ali sob a brancura das rosas. Uma data e um retrato. Para além do pó e do nada, a saudade, a ternura da lembrança.
Do outro lado desperta um novo sol. De cá para lá é só um passo. E as rosas brancas abrem no infinito deste espaço.