MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 17 – por José Brandão

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Aquela hora já o presidente da República tinha sido posto ao corrente do que se passava no Arsenal.

Num discurso dirigido às autarquias locais, poucos dias após os acontecimentos, o presidente António José de Almeida descreve como teve conhecimento do que estava acontecer nas instalações da Armada:

«Às 23 horas menos um quarto entrou em minha casa o tenente Agatão Lança, que, excitado e aflito, me procurava. Recebi-o no meu quarto de dormir, onde procurava repousar um pouco de uma longa e tormentosa vigília e das dores causadas pela doença, que me tinha presa de um dos seus costumados assaltos. O heroico marinheiro comunicou-me a morte de António Granjo e Carlos da Maia, lá em baixo, no Arsenal, entre o ruído da fuzilaria e os alaridos da sedição, e disse-me que a anarquia já tinha efetivado o seu salto de pantera sobre vários pontos da cidade. Senti-me varado pela dor, mas nem por sombras desfalecido. Creio que os meus olhos não tiveram, naquele momento, uma lágrima para os mortos, e sentindo, embora, o coração a estalar de desespero, só pensei nos que viviam, para lhes salvaguardar a existência, e na Pátria, para lhe manter ilesa a honra.

Corri ao telefone e investi o cidadão Manuel Maria Coelho na presidência do Ministério, concedendo-lhe os poderes mais amplos e discricionários para que, sob a minha inteira responsabilidade, a ordem fosse, a todo o transe, mantida. Depois, a seguir, sem descansar, nomeei ministros e outras autoridades, pelo telefone, comuniquei com o Governo Civil, com a Guarda Republicana, com toda a parte, enfim, onde houvesse alguém que pudesse servir o princípio da ordem, a todos recomendando que defendessem inexoravelmente, pelas armas, contra os malfeitores, a inviolabilidade dos domicílios, a vida e fazenda dos cidadãos.»

António José de Almeida apresentava assim a evolução dos acontecimentos. Neste seu discurso de 30 de outubro de 1921, portanto a escassos dias do sucedido, são visíveis algumas discrepâncias em relação a indicações horárias anteriormente apontadas. Aliás, grande parte dos relatos referentes a todo este caso da Noite Sangrenta de 19 de outubro de 1921 apresenta-se envolta num tal cerro de confusões e contradições, que, ainda hoje, fazem a cabeça em água aos que procuram abordar o evento na base de alguma exigência histórica.

No caso do então Presidente da República, são, no entanto, de maior peso as acusações que lhe imputam alguma demora em tomar as medidas que a situação desde logo requeria. António José de Almeida será para sempre perseguido por um ferrete que acoima sem complacência o seu modo de enfrentar uma revolta que tinha vencido sem efusão de sangue.

Várias vozes, desde dirigentes do golpe a familiares e amigos das vítimas, não poupam o velho caudilho republicano, empossado das mais altas atribuições de Estado, pelo que terá sido o resultado da sua inabilidade face ao que, desde logo, estava mais do que evidente.

Alguns chegam a considerá-lo como o grande responsável pela leva de crimes que se abate sobre a noite de Lisboa em 19 de outubro de 1921. A sua decisão tardia em reconhecer a inevitabilidade de conferir poderes governativos à Junta, desde cedo vitoriosa, é apontada como a principal causa que terá levado à chacina verificada.

É, porém, com o desenrolar do que vai continuar a suceder, já depois de satisfeitas as exigências da Junta que comandava o movimento revolucionário, que vem alguma prova de que o procedimento do chefe de Estado nunca seria tão decisivo para o que jamais podia ser parado. De facto, passadas largas horas sobre a assunção de todos os poderes por parte da Junta Revolucionária, a Camioneta Fantasma não tinha parado na sua seiva da morte.

José Carlos da Maia era mais um fundador da República que morria nessa noite de 1921. Carlos da Maia cobrira-se de glória nesse dia 5 de Outubro de 1910. José Carlos da Maia está à frente dos revolucionários que vão conseguir pôr a Marinha ao lado dos que já estavam na rua a lutar pela República. Desde as primeiras horas do dia 4 que juntamente com um valoroso grupo de oficiais da Armada assumiram o controlo do Quartel de Marinheiros, em Alcântara.

Carlos da Maia tem de enfrentar o comandante Pereira Viana, que, de espada numa mão e pistola noutra, faz menção de resistir.

– Entregue-se, comandante, senão morre! – Intima Maia.

A resposta é os tiros de pistola que atingem três homens.

A retribuição vem também com o cheiro a pólvora…

Nas casamatas do quartel estavam já presos alguns oficiais que se recusavam a aderir à revolta. Um deles chama-se António Sérgio de Sousa, é segundo-tenente. Ainda não é famoso.

Os oficiais José Carlos da Maia e Ladislau Parreira tentam tomar de assalto o Palácio Real das Necessidades, onde é suposto estar o rei D. Manuel II. Não conseguem. O importante dispositivo defensivo era avantajado demais para as posses do destacamento de marinheiros e dos civis da Carbonária que ousavam a proeza. Nos navios a ação dos revolucionários decorre com êxito a bordo dos cruzadores S. Rafael e Adamastor. Onde a situação se apresentava mais complicada era no D. Carlos, devido a ausência dos dois principais elementos da guarnição envolvidos na revolta.

Caberá a José Carlos da Maia assumir o comando da tomada do navio, operação que começa por volta das dez da noite do dia 4. Contando com um pequeno grupo de uma dezena de marinheiros, apoiados por cerca de quarenta civis carbonários e mais dezassete marinheiros que umas horas antes tinham conseguido sair do D. Carlos, o segundo-tenente Carlos da Maia apodera-se de um dos vapores da Alfândega e parte para a abordagem do poderoso vaso de guerra que faltava para garantir o sucesso da adesão da Armada à revolução republicana. Há forte tiroteio e um dos assaltantes é logo abatido pelo comandante do navio, que de seguida é por sua vez morto.

Dentro de pouco tempo o Palácio das Necessidades começa a ser alvo de um bombardeamento a partir do mar. Todas as unidades da frota da Marinha de Guerra que se encontravam no Tejo estão conquistadas para a Revolução. Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque comandados por Machado Santos.

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