CARTA DE PARIS – Grande Guerra: “Os sacrificados” de João Grave – por Manuela Degerine

“Estamos todos condenados: somos os sacrificados”

(“Canção de Craonne”)

IV

A inversão dos valores

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Para evitar que os leitores perdessem calorias em conjeturas, João Grave preferiu desvendar francamente o enigma no seu livro de contos “Os sacrificados”.

“Para convencerem Miguel do seu êrro, inteiramente sentimental, diziam-lhe que só a luta viriliza as raças, as dota de fôrça, de heroicidade, de resistência, não permitindo que nelas medre a flor do egoísmo. Asseveravam-lhe que os povos que deixavam de combater durante muitos anos entravam numa decadência angustiosa, num crepúsculo em que tôdas as suas faculdades e todos os seus dons se apagavam tristemente.[1]

Notam – não é verdade? – que para João Grave o feminino, que ele associa à paz, é uma degenerescência do masculino, carece de “força”, “heroicidade”, “resistência” e representa “a flor do egoísmo”. [Convido os leitores a meditarem sobre a força, a heroicidade, a resistência, o altruísmo que observam nas mulheres que os rodeiam: avós, mães, tias, irmãs, companheiras.] Na mesma lógica, as palavras “decadência”, “crepúsculo”, “apagavam” sublinham as consequências nefastas da paz, esse tempo em que se criam os filhos, respeitam as vidas e cultivam os campos… Mais dois exemplos deste ponto de vista são o qualificativo “angustiosa” e o advérbio “tristemente” . O que é aqui de algum modo triste e angustioso? Pois… A paz.

É evidente que João Grave se limita a inverter as caraterísticas da paz e da guerra. A força, a resistência, o altruismo, a heroicidade são qualidades que a luta pela vida – uma luta que merece respeito – desenvolve no tempo de paz, em contrapartida podemos com toda a verdade considerar a guerra como uma degenerescência pelo não respeito das leis e dos direitos fundamentais: os homens são mortos (e mutilados), as mulheres violadas, os bens destruídos, a censura imposta, as liberdades abolidas… Por conseguinte se a luz é uma metáfora banal da razão, o crepúsculo pode metaforizar a guerra pela demência que conduz as sociedades a mobilizar todas as forças para a morte; e é evidente que tudo isto só pode gerar muita dor, angústia e tristeza.

Pena é que os propagandistas da guerra não venham a morrer nela: saboreando assim experimentalmente as suas teorias. Foi o caso deste “rouxinol da carnificina”[2] chamado João Grave que só morreu em 1934… Em contrapartida os portugueses – dezenas de milhar – que perderam a vida, a saúde ou, no mínimo, anos de vida naquela Grande Guerra foram, contra a sua vontade, conduzidos para o “açougue”[3] por teorias que não conheciam e interesses de que não tiraram proveito. Isto faz-me lembrar uma personagem de Jacques Tardi no álbum “Putain de guerre!”… “Era ali, no centro do braseiro, que eu os queria a eles, os espertalhões todos: Joffre, o Presidente, o Kaiser, os ministros, os padres, todos os generais e a minha mãe por me ter dado à luz!”[4] Acrescentemos a esta lista os namorados da guerra.

(Continua
[1] GRAVE, João, “Os Sacrificados (Contos da Guerra)”, segunda edição, Livraria Chardron, Porto, sem data, p. 158, com a ortografia da época.
[2] Alcunha que o Prémio Nobel Romain Roland atribui a Maurice Barrès.
[3] Palavra de um combatente citado por FRAGA, Luís Alves de, “Guerra e Marginalidade, O Comportamento das Tropas Portuguesas em França, 1917-1918”, ed. Prefácio, Lisboa, 2003, p. 50.
[4] TARDI, VERNEY, “Putain de Guerre, 1014-1915-1916, ed. Casterman, 2008, p. 20.

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