Com a detenção do ex-primeiro ministro José Sócrates a dominar os noticiários, a concentrar a atenção da opinião pública e os focos da comunicação social, vamos abordar outro aspecto da relação perversa entre poder político e poder económico. Na passada quinta-feira, durante a reunião da comissão parlamentar de Economia, audição proposta pelo PCP e aprovada por unanimidade após as detenções relacionadas com os vistos “gold. Cecília Honório., deputada do Bloco de Esquerda, disse que os vistos “gold” não criam postos de trabalho. Ripostando, Paulo Portas, perguntou: – “A senhora deputada diga-me uma coisa. Quem é que cria mais postos de trabalho? A Remax ou o Bloco de Esquerda?”.
Tem razão o vice-primeiro-ministro – de facto, o Bloco de Esquerda não cria tantos postos de trabalho como a conhecida empresa… nem distribui tantos empregos e tachos pela sua rapaziada como PSD, PS e CDS. Aliás, estes três partidos, contrariando bases programáticas e bandeiras ideológicas fundacionais, têm vindo a convergir ao longo das quatro décadas de regime dito democrático – o hábito faz o monge e a praxis neoliberal, o pragmatismo imposto por quem manda, obriga a que a resposta dada às questões concretas que a governação implica, sejam muito semelhantes em três partidos cujas bases teóricas são substancialmente diferentes. Os pressupostos que o politicamente correcto impõe, vão no sentido da desvalorização da dicotomia esquerda versus direita. Se alguém invoca princípios (marxistas ou outros), corre o risco de provocar sorrisos. A realidade está plasmada nos gráficos dos economistas – o que vem Marx ou qualquer outro fazer a uma “conversa séria”?
Não sabemos até que ponto Sócrates é culpado das acusações que lhe são feitas e que sustentam a sua detenção. Oxalá a máquina da Justiça funcione e possa apurar a verdade dos factos. Neste e noutros casos. Sobretudo, oxalá o desencadear desta operação neste momento não tenha como objectivo desviar as atenções de outros assuntos. A proximidade ideológica entre o socialismo na versão social-democrata e o neo-liberalismo é remota. A proximidade, ou talvez mesmo, a cumplicidade, entre políticos do PS e do PSD, essa, sim, é estreita. Talvez se conseguisse uma economia de escala se se fundissem num só partido. Cabiam todos na mesma sede.
E nas mesmas celas,,,
