Portugal estava horrorizado. De uma ponta a outra, o País vivia a comoção da descomunal tragédia que se abatera sobre a Pátria lusitana.
António José de Almeida resolve resignar ao cargo de presidente da República.
Um número imenso de oficiais do Exército pede transferência da Guarda Nacional Republicana – entre eles alguns implicados no movimento revoltoso.
Dezenas de oficiais da Armada requerem a demissão dos seus postos ou a baixa à reserva – indignados como papel da corporação.
O Governo tenta por todos os meios ser aceite por uma opinião pública que nem por um só momento deixa de o ver coberto de sangue.
Pretende dar caráter nacional aos funerais dos antigos ministros – António Granjo, Carlos da Maia, Machado Santos.
As famílias das vítimas rejeitam a distinção. A viúva de António Granjo recusa com clareza de dor incontida:
– Quem o podia salvar, não quis. Quem quis, não pôde… Ele agora dispensa favores…
Quinze dias depois de iniciar funções, o Governo de Manuel Maria Coelho, impossibilitado de seguir qualquer caminho e cercado de ódios e suspeições, dá por terminada a sua existência.
Terminava envolta em colossal vergonha a vida política de uma das mais distintas figuras do regime republicano. Manuel Maria Coelho era homem de honra e de honestidade que jamais poderia ficar incólume a uma tão grande tragédia para a República e para o País.
Logo nos primeiros dias, comovido e de lágrimas na voz, confessara a angústia que estava já a viver:
– Agora, neste momento, eu tenho quase receio de encarar minhas filhas, minha mulher, de lhes ouvir as justas recriminações!
Desde o primeiro dia do movimento que eu não apareço em minha casa! Tenho passado os dias e as noites encerrado neste gabinete. – A conversa do velho coronel, com um repórter da revista ABC, decorria naquele que tinha sido uns dias antes o gabinete de António Granjo.
– Como se encontrou V. Ex.ª envolvido neste movimento?
Manuel Maria Coelho tem alguns momentos de hesitação, para depois responder:
– Este movimento estava de há muito planeado e era a sequência lógica daquele que fracassou há tempos e que se dizia ser chefiado por Liberato Pinto.
Continuando a responder ao jornalista, o chefe militar do movimento de 19 de outubro adianta:
– Os indivíduos que prepararam inicialmente esta revolta procuraram rodear-se de certas individualidades, com as quais em breve deixaram de contar, por elas exigirem lugares e colocações diversas, impondo nomes para o cargo de ministros.
Mistura sem nexo, projeto inexistente e intenções obscuras que condenavam a curto prazo a revolução de 19 de outubro de 1921.
O outubrismo sucumbia a uma morte de que não ficaria outro rasto que não fosse o sangue das vítimas que o seu ato propiciou. Se alguns propósitos programáticos tinha, deixou-os para sempre irreconhecíveis quando permitiu que a sinistra camioneta galgasse impune pelas ruas da cidade.
– Mas quem mandou matar? – Continua a ser o grande mistério destes acontecimentos de 1921.
Versões não faltam. Há-as para todos os gostos e das mais variadas cores.
Da direita à esquerda, dos republicanos aos monárquicos, da Maçonaria aos Centros Católicos, do Dente de Ouro ao Presidente da República, do padre Lima ao Partido Democrático, da Formiga Branca a Alfredo da Silva, de emigrados a espanhóis, etc., etc., etc., não faltam opiniões, nem escasseiam «materiais de trabalho» para levar por diante a tese mais absurda.
Passados mais de 90 anos sobre o que aconteceu nessa data de 1921, são tantas e tão contraditórias as conclusões avançadas nas obras que abordam o caso que só pode haver uma certeza em tudo aquilo que então ocorreu: é o facto político mais misterioso e com maiores segredos de toda a História da I República Portuguesa.
Nada de semelhante é possível observar durante os dezasseis anos que dura o regime. Nada que se lhe compare aparece alguma vez com tamanha dimensão de inexplicável selvajaria nas convulsões políticas da história Portuguesa.
Razão devia ter Raul Brandão quando comentava a tragédia sangrenta e os rancores dessa época com esta passagem:
«Ódio. Tem sido sempre o mesmo ódio. O ódio que vi proclamado por Moreira de Almeida, nestes termos: «Tenho-lhes ódio! Tenho-lhes ódio!» E como lhe observasse que para se voltar à Monarquia era preciso matar quinhentas pessoas, respondeu logo: «Matam-se.» O ódio que vi nos republicanos, de pistola no bolso, para matar, ou de carabina em punho, nas noites do República, quando o jornal estava para ser assaltado pelos democráticos […] De toda a mentira avolumada se formou a atmosfera de morte. Alto como o grito desta mulher, se prolonga, ecoa nas nossas almas! Nunca mais conseguirão calá-lo.»
O escritor tinha razão. Berta Maia jamais deixará de gritar por justiça. Lutará contra tudo e contra todos para saber a verdade sobre a morte do marido. Queria a verdade; não a que lhe era mostrada pintada das mais variadas cores. Pouco lhe importava que todos tentassem sacudir as responsabilidades que tinham nas suas consciências e sem o menor pudor esgravatassem na pior lama os mais inconcebíveis enredos sobre os culpados desses crimes horríveis.