«A responsabilidade dos morticínios pertence ao Sr. Presidente da República. Foi preciso, infelizmente, matar o Granjo, para que S. Exa. se dignasse assinar o decreto de nomeação dos ministros!…», arremete Manuel Maria Coelho ao procurar fugir ao que saía da boca do Dente de Ouro: «Os responsáveis dos morticínios, os criminosos, não é ele, não são os homens da camioneta. Não! O responsável, o único responsável, é o Governo saído da revolução!» – o de Manuel Maria Coelho – «É esse que eu vou acusar.» «Acuso-o de não ter sabido evitar os desmandos cometidos pelos homens da camioneta, de não ter sabido prendê-los, de não ter sabido prender-me, como eu queria.»
Todos tinham versões. Todos queriam sacudir a água do capote. Carrascos, mandatários, chefes e oficiais da sublevação que abriu as portas à chacina, desdobravam-se, acusavam-se, atabalhoavam-se em arranjos de toda a espécie.
Procópio de Freitas, dirigente da Junta Revolucionária, antigo monárquico, natural da Madeira, avança com a hipótese de a sugestão dos crimes partir de emigrados monárquicos refugiados em Vigo. Ele, a quem chamavam o «Procópio do Mau», alto como um mastro e muito ao sabor dos ventos qual vela mal governada… que nunca se distinguira por qualquer ato intelectual ou fora do vulgar , e sob quem pendiam suspeitas gravíssimas: «Toda a gente sabe que quando Freitas da Silva saiu de casa, debaixo de prisão, declarou à sua esposa que não se assustasse que nada lhe aconteceria, mas se algo de grave ocorresse, a responsabilidade devia ser imputada a Procópio e a mais ninguém». Podia no meio de tanta ula ter também uma tese sua.
Um outro dirigente da mesma Junta Revolucionária tem versão diferente. Para Camilo de Oliveira, tido por republicano sincero, tudo se ficou a dever a uma organização extremista, estranha ao movimento, que atuara «mediante infiltrações dissolventes entre os soldados e marinheiros».
Já agora, vale a pena falar de mais duas ou três opiniões deste espetacular corolário das origens e causas da Noite Sangrenta.
Trata-se da ação da Espanha nos acontecimentos de 19 de Outubro de 1921, que mereceu tratamento especial pelo menos em dois livros que abordam este caso.
O primeiro é de 1936 e fala da intervenção espanhola nestes termos:
«Portugal, com as suas paixões e as suas fraquezas, era um terreno propício à ambição estrangeira.
Nada faltava no plano de Afonso XIII: nem a desordem sabiamente estimulada, nem a política de atração pessoal, que conquista os auxílios mais úteis e valiosos.
A ação diplomática falhara. A ação direta ia começar. O ano de 1921 viu intensificar-se o esforço espanhol. Veio de Madrid algum dinheiro. O aliciamento para a revolta recomeçou, com a colaboração de elementos absolutamente suspeitos. A conspiração sofreu altos e baixos, mas ia renascendo sempre.
A ação dos jornais interessados no movimento não se limitava a criar o espírito de revolta: incitava claramente ao homicídio. No subsolo de Lisboa moviam-se os profissionais da desordem e do crime. A agitação tomava inquietantes proporções.
Foi, então, que o presidente da República recebeu a visita inesperada do embaixador de uma nação amiga. Levava-o a procurar o chefe do Estado esta razão imperiosa: é que se preparava em Portugal um novo e perigoso movimento revolucionário, estimulado na sombra por uma nação estrangeira, ansiosa de intervir nos destinos do País.
António José de Almeida decide convocar um Conselho de Ministro extraordinário e, sem esconder a sua emoção, dá conta ao Governo do aviso diplomático que lhe fora feito. Mas António Granjo – bravo e simples transmontano – estava já de posse do segredo da revolta em preparação. Sabia-a adiantada e ameaçadora, não ignorava o auxílio material que do estrangeiro lhe vinha. E, numa revelação que explica, pelo menos, um dos aspetos até agora incompreensíveis do drama de 19 de outubro, anunciou ao presidente da República que o almirante Machado Santos fora designado para chefiar a contraespionagem portuguesa.
Na noite do Arsenal, a nação salvou-se quase por milagre. António Granjo e Machado Santos foram, porém, sacrificados pela sanha – e pela senha feroz dos promotores da chacina.»
Opinião no mesmo sentido encontra-se expressa num outro livro, este escrito em 1973, e onde o autor, depois de aludir ao papel dos monárquicos exilados em Vigo, aponta para o seguinte:
«Mas, quanto a mim, vou ainda mais longe, e com algum fundamento: só a uma potência estrangeira podia interessar o desaparecimento dos principais homens de ação e de valor em Portugal.
Nada mais fácil que encobrir o desígnio oculto da intervenção estrangeira, com a capa de serviço a prestar à Monarquia ou até à própria pureza da República.
Não nos esqueçamos que vieram fundos de Espanha dos exilados monárquicos e que nos bastidores da revolução de 19 de Outubro surge, entre o grupo dirigente monárquico, a figura misteriosa dum estrangeiro.»
«Quem aprofundar a história da I República verá que o auxílio às incursões monárquicas, as várias concentrações de tropas espanholas na fronteira, a vinda inopinada e inoportuna da esquadra espanhola ao Tejo, o conhecido desejo da anexação, por parte de Afonso XIII – até D. Manuel II o temia – são tudo fatores que levam ao convencimento de que por detrás da camioneta fantasma alguma coisa de muito grave existia.»
«Se tivesse sido possível debater o assunto publicamente, se se pudesse aprofundar a confissão do Dente de Ouro e de outros, quase certo que se chegaria à conclusão de que, atrás da amálgama das paixões políticas portuguesas e do reacionarismo nacional, figurava dinheiro e organizações estranhas.»
Mais recentemente, em 1985, um historiador espanhol, autor de vasta obra sobre as relações do seu país com a I República portuguesa, vem por seu turno trazer alguns dados de considerável importância para este envolvimento da Espanha nos destinos do regime português.
É um completo inferno este emaranhado de multiplicidade à volta dos segredos da Noite Sangrenta e do 19 de Outubro de 1921.
Não faltam alibis. Ninguém quer ser culpado. Todos se acusam de culpas.
Já em 1932, um autor, que durante anos nunca deixou de escrever sobre o assunto, ainda se angustiava com o mistério que continuava a impedir a verdade; toda a verdade:
– Mas quem mandou matar? – continua a clamar-se todas as vezes que se revive o furor da matança.
Estes acusam aqueles. Aqueles incriminam estes».
«Meu Deus! E porquê? Ah, eu sei! Antigos morticínios impunes. Propagandas tendenciosas. Acusações alarmantes. Alucinaram esses homens. Acirraram-lhes o medo. Espicaçaram-lhes o egoísmo. E daí a ferocidade, o crime, a matança grande!»
«Sem a exaltação dos espíritos, provocada pelos gerentes da opinião pública – jornais, Parlamento, comícios, boatos – a matança não teria instigadores nem executores.
Com a mesma amargura está também Raul Brandão. Depois de passados vários anos sobre os terríveis acontecimentos – já em Dezembro de 1928 e em plena Ditadura –, o escritor continua a atiçar as consciências:
«Se todos nós quiséssemos ouvir, encontraríamos, talvez, dentro da nossa alma, a explicação da noite infame e compreenderíamos porque ela foi possível. Ódio, terror e o desconhecido. Andaram também metidos nisso políticos e, ao que se diz, até um padre – nas ruas são os personagens insignificantes que entram em todas as tragédias. Quem os mandou matar? – porque estas coisas nunca são espontâneas. De quando em quando, uma figura coloca-se no negrume – e logo o negrume a apaga. Alguém andou metido nisto. Talvez Deus também andasse metido nisto… Cada um terá a sua explicação – quase sempre pueril.»