VALHA-NOS O CANTE ALENTEJANO! – por Mário de Oliveira

quotidiano1O esperado e desejado aconteceu. O Cante alentejano é, a partir desta semana, património imaterial da humanidade. Unesco dixit e bem. Perante tamanha distinção, grávida de humanidade, musicalidade, poema, arte, cultura, o senhor Dinheiro pode limpar definitivamente as mãos à parede. Embora consiga ser o senhor do mundo, ter adoradores aos milhões, biliões, em toda a terra, jamais conseguirá ser património imaterial da humanidade. Será sempre a besta-mor do universo, que não apenas do planeta, gerada pelo cristianismo e dele nascida, com a perversa missão de destruir as mentes-consciências dos seres humanos, a começar pelas dos seus mais incondicionais servidores, os grandes banqueiros, os grandes financeiros, os grandes das nações e das igrejas cristãs/ religiões, todos de alma pequena, marcados/ assinalados por ela, para tornarem pequenas as almas de quantas, quantos se deixem enredar nas suas malhas. Não! Não foram apenas nem sobretudo os miseráveis 48 anos de fascismo salazarista que fizeram de nós mesquinhos, invejosos, superficiais, banais, beatos, de joelhos, medíocres, aves de capoeiro. Somos assim, desde a fundação. Nascemos, como nação, amordaçados, crescemos amordaçados, morremos amordaçados. O clero romano, então, no topo da pirâmide, bem acima da nobreza e do povo, sempre ditou as leis, os costumes, as tradições, e formatou as nossas mentes-consciências. O campanário dos clérigos fez de nós um povo a toque de sinos, regulado pelo “Avé de Fátima” do relógio da torre da igreja, e marcado, logo ao nascer, pela cruz, o instrumento de tortura do império cristão, sucessivamente catequizado, confessado, comungado, casado, enterrado à sombra dela. E eis que, surpreendentemente, esta semana, vem a Unesco reconhecer o Cante alentejano como património imaterial da humanidade. A decisão, carregada de humanidade, é um empurrão mais, a sairmos de vez da cruz do império cristão e dos seus clérigos sacerdotes. E sermos todos Cante alentejano, comunhão de afectos.

28 Novº 2014

 

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