CARTA DE PARIS – Grande Guerra: “Os sacrificados” de João Grave – VII – por Manuela Degerine

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“Estamos todos condenados: somos os sacrificados”

(“Canção de Craonne”)

VII

As virtudes da guerra

(conclusão)

Em “Ressurreição de uma alma”[1] João Grave prossegue a apologia da guerra: “Em vão lhe afirmavam que essa guerra por êle tam amargamente odiada era uma fonte de energia, de disciplina, de maravilhosas virtudes, de abnegação, de patriotismo, de solidariedade.”[2] [Estas virtudes e qualidades – energia, disciplina, abnegação, patriotismo e solidariedade – serão impossíveis na paz?] No início do conto o protagonista afirma não ter nenhum Estado “o direito de sacrificar a conflitos políticos a mocidade promissora da sua gente”[3], mas uma viagem pela Europa basta para lhe dar a impressão de perder “a alma entre as turbas estrangeiras”[4] e por isso, quando “em remotas paragens que nos pertenciam”[5] a tropas portuguesas perdem uma batalha, decide aliastar-se na guerra como voluntário: “êle que outrora a deprimira, alucinado por sentimentos que agora lhe pareciam monstruosos!…”[6]. Por azar talvez perda não apenas a alma mas também o corpo combatendo em terras estrangeiras um inimigo estrangeiro. E antes disso talvez pratique atos muito mais “monstruosos” do que o seu inicial pacifismo.

No conto “Conciliados na morte” o leitor volta a ler que “a guerra é uma fonte inexgotável de virtudes colectivas”[7]. [Sendo a principal matar outros homens e a seguir violar-lhes as mulheres, filhas e irmãs.]

Poderíamos prosseguir a enumaração pois cada frase de “Os Sacrificados” é um exercício de propaganda… Não vale a pena. O que vimos nesta sequência de crónicas permite um resumo das teses de João Grave: 1. A guerra vitaliza e enobrece os povos. 2. A guerra tem beleza e grandeza. 3. A guerra desenvolve virtudes e qualidades: energia, disciplina, abnegação, patriotismo, solidariedade. Os principais processos estilísticos são – como vimos – a confusão e a inversão. [Não pensemos que este ludíbrio faz apenas parte do passado, pois nos dias de hoje os média e a publicidade continuam a tentar manipular-nos, como todos sabemos, por isso quando ouvimos rádio, lemos um magazine, olhamos para um painel publicitário: importa usamos a nossa inteligência mais ativa. Agora como em 1917. Como sempre.]

Quando João Grave escrevia estes contos, a “Canção de Craonne” era – não obstante as proibições – cantada nas trincheiras francesas, por conseguinte é provável que o autor escolhesse “Os sacrificados” para título desta propaganda de guerra como uma provocação: a inversão é a sua figura de retórica favorita.

[1] GRAVE, João, “Os Sacrificados (Contos da Guerra)”, segunda edição, emendada, ed. Livraria Chardron, Porto, sem data.

[2] Idem, p. 158; ortografia da época.

[3] Idem, p. 159.

[4] Idem, p. 164.

[5] Idem, p. 166.

[6] Idem, p. 167; ortografia da época.

[7] Idem, p. 149; ortografia da época.

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