Desde pequenina que saio à rua durante esta época natalícia e fico encantada com a magia do Natal.
São as luzes coloridas, as árvores de Natal, agora muito maiores do que no tempo em que eu era pequenina, é a música da época a ouvir-se nas ruas.
Assim como a sociedade mudou, e neste caso, da Ditadura para a Democracia, outros hábitos se foram criando. Há mais decorações de Natal, há mais comércio dos símbolos natalícios Quando havia o 13º mês, as famílias habituaram-se a terem as suas coroas de Natal, as suas velas, a comprar o seu presépio, a enfeitar a casa com objectos de Natal.
No Natal da minha infância não havia o apelo voraz para o consumo, havia, o que ainda mantenho, o não se saber o que o “Menino Jesus” nos iria dar. Não me lembro de me dizerem ” Se te portas mal não tens o Tablet no Natal”. Eu sabia que o “Menino Jesus” alguma prenda me havia de dar.
Acreditei no Pai Natal durante alguns anos, assim como o meu irmão. Nos dias que precediam o Natal fazíamos a ronda à casa para ver se havia alguma coisa para nós, mas nada encontrávamos porque o “Menino Jesus ainda não tinha mandado”. No dia 25 de Dezembro é que íamos ver o que o “Menino Jesus” nos tinha mandado pelo Pai Natal e nos tinha posto no sapatinho que ansiosamente tínhamos colocado ao pé da Árvore de Natal, no dia 24.
A magia era vivida com alegria.
Quando eu era pequenina, não havia desilusões… havia a surpresa ao desembrulharmos as prendas e, é claro que aquelas que eram moles (roupa) deixávamos para o fim.
Lembro-me de uma casa de bonecas de metal que tinha vindo da Base dos Americanos que havia nos Açores, ainda mantenho essa “Casinha das bonecas” com alguma mobília da época e com outra mais recente.
Lembro-me de, no mesmo Natal, o meu irmão ter tido uma pista de automóveis também da Base. Lembro-me de ter recebido uma caixa enorme cheia de bolas de vários tamanhos e cores. E de muito mais me lembro, porque tudo era surpresa.
Era uma época diferente, falava-se do Presépio, da Árvore de Natal, da Missa do Galo, do bacalhau, dos frutos secos, dos bolos feitos em casa…da família e amigos que iam jantar a nossa casa.
Toalhas de Natal eram as que as mães faziam em casa bordadas a ponto de cruz, a que foi feita pela minha mãe ainda existe e aparece só no Natal.
O Natal, para mim, continua a ser a magia da surpresa, quando me perguntam o que quero digo sempre que não sei, quando a minha mãe pergunta o que vou dar à minha sobrinha digo que é surpresa.
Tenho pena que hoje em dia as crianças, que têm Natal, escolham o que querem pelos catálogos dos supermercados, das lojas dos brinquedos, dos anúncios da televisão.
Só gostaria de voltar a essa época passada, pela inocência com que acreditávamos no que se passava de bom à nossa volta.
Hoje, no século XXI, as crianças já não acreditam no Pai Natal, nem no afecto do Natal, hoje no século XXI há crianças que não têm Natal, que estão em países em Guerra, que são refugiadas e vivem em tendas da Cruz Vermelha. Crianças a quem se lhes pergunta o que querem no Natal e a resposta é “Um pijama” (o tal presente que ficava para o fim), e a resposta é “ um brinquedo só para mim, nunca tive um brinquedo novo, são sempre de outros meninos”. Há crianças que dizem “eu não acredito no Natal, se houvesse Natal eu já tinha tido uma bola…).
Hoje, no século XXI, há crianças que morrem de fome, que são maltratadas, que são abusadas, que não conhecem os seus Direitos.
Se calhar já não há Natal!

