EDITORIAL – IMIGRAÇÃO E XENOFOBIA

Imagem2A propósito da onda de xenofobia que cresce na Europa, anteontem, em Paris, François Hollande, no discurso inaugural do Museu da História da Imigração, disse: «Os estrangeiros têm sido sistematicamente acusados dos mesmos males. O dado novo é a penetração dessas teses num contexto de crise interminavel e de globalização”. De facto, a xenofobia, particularmente a islamofobia, parece estar a constituir uma preocupante resposta para a crise que afecta as economias europeias. Tal como nos anos trinta do século XX, a usura dos judeus foi usada como «explicação» para a depressão que assolou o Ocidente. 

Grandes manifestações contra o que se considera ser um excesso de generosidade de que os refugiados em particular e os imigrantes em geral usufruem, tem sacudido a Alemanha. E não se trata dos habituais skinheads, saudosos do nazismo, mas sim gente com filhos, casais de trabalhadores, reformados… No Domingo, em Dresde, na Saxónia, 15 000 manifestantes saíram à rua em protesto contra a generosidade do Estado alemão, e os abusos com que os refugiados pagam essa generosidade, “ameaçando a civilização europeia  cristã”.

Um movimento foi criado – Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente – Pegida. A palavra de ordem, recuperada de 1989, quando o Muro foi derrubado, é «Somos o Povo». Angela Merkel, em intervenção pública de ontem, segunda-feira, verbalizou a preocupação pela onda de xenofobia: “Na Alemanha há liberdade de manifestação, mas não há lugar para campanhas de difamação e de calúnias contra os que vêm de outros países”. Citou o presidente da República, Joachim Gauck, que classificou os manifestantes como “extremistas” e o ministro da Justiça que considerou as manifestações como uma «vergonha para a Alemanha”. Quando Merkel pronunciou os nomes do presidente e do ministro, fez-se ouvir um coro de assobios.

Os abusos dos imigrantes existem, mas note-se que na Saxónia onde a manifestação foi enorme, os estrangeiros são apenas 2,2% da população e os muçulmanos 0,1%. Irrelevante – mas a Pegida alastra para outras regiões e a classe política mostra-se preocupada com o que parece ser o ressurgir de fantasmas.

O criador da Pegida é um tal Lutz Bachmann, com passado criminal por tráfico de drogas, roubo e violência. Vindo do mesmo  extrato social que há oito décadas levou Hitler ao poder. Embora as pessoas que saíram às ruas de Dresde digam “Não somos extremistas nem ultras. Só queremos conservar a identidade alemã”. E talvez queiram.

Mas o que configura a identidade alemã? A poesia de Goethe, as sinfonias de Beethoven ou os ladridos raivosos de Hitler?

1 Comment

  1. Bravo, Carlos Loures! Excelente editorial. Precisamos estar sempre atentos a esses movimentos aparentemente inocentes. A nefasta “revolução” de1964, no Brasil, começou com marchas da família… E a tortura e os assassinatos que vieram depois, e que a Comissão Nacional da Verdade acaba de lembrar em seu recente relatório, tiveram como pretexto a “defesa da democracia” contra os “subversivos” e comunistas. .
    abraço solidário da
    Rachel Gutiérrez

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