
V
(conclusão)
“… Se o seu menino tiver a desgraça de ser humorista profissional nunca poderá ir a parte nenhuma sem que quantos o cercam o julguem na obrigação de ser engraçadíssimo. E é um horror, minha querida senhora, sentir pesar sobre si a curiosidade exigente dos outros, sem às vezes a poder satisfazer. Um escritor que faz dramas tenebrosos para o Teatro Nacional, que escreve sonetos, odes ou epitáfios, que envia à Academia escavações históricas, que enfim cultiva e saboreia o grandioso, pode estar calado numa sala ou mesmo dizer banalidades, sem que a sua reputação seja prejudicada. Se o convidam a falar em público ou a escrever num álbum ou numa gazeta, poderá conversar ou escrever como toda a gente, que o seu prestígio não se abala.
Mas o desgraçado humorista!…
Na realidade a vida é tão monótona – quando não é arreliadora – que os tais noventa e nove por cento de sensaborões existentes pelo mundo, ao verem surgir de súbito o cavalheiro que adquiriu, com razão ou sem ela, fama de engraçado, dizem consigo:
– Ora graças! Lá vem este que nos vai distrair um bocadinho…
Mas imagine, minha senhora, que nesse dia o humorista está de mau humor e teima em não ter graça, como certos papagaios teimam em não falar por mais nêsperas podres que se lhes dêem?
Se se espreme, coitado, e apesar disso não consegue desopilar a figadeira da galeria tanto quanto ela espera?…
Se acrescentar que quase toda a gente considera facílimo este ingrato mister de fazer rir o próximo e é da opinião dos dois manos supracitados, não queira que o seu Gibisinho venha um dia a sentir em torno de si o rancor daqueles a quem não tenha conseguido fazer cócegas no momento em que se preparavam para as gozar. Ou então seu filho terá que trazer sempre preparados meia dúzia de ditos, destes que ardem com qualquer rastilho, e a miúde virá a envergonhar-se de si próprio e das múltiplas concessões exigidas pela sua triste condição de humorista…
***
A senhora despediu-se muito desconsolada. À saída o menino Gibi atirou ao chão o bengaleiro e partiu dois vasos da casa da entrada. O malvado, ainda em cima, ia a rir-se pela escada abaixo. Só lhe faltou dizer-me o que muitos imbecis ainda me dirão, antes que me refugie na paz do meu jazigo de família:
– Agora veja lá se mete isto no seu folhetim…
15 de Abril de 1922

