Minha mãe era camareira num Hotel da capital e meu pai, além de porteiro substituto e moço de elevador, exercia os mais diversos ofícios no mesmo Hotel, desde canalizador e carpinteiro a ajudante de cozinha. Nos dias de muito movimento, como não tinham onde me guardar, levavam-me com eles para o trabalho, naturalmente com autorização do gerente. Diziam que tal só acontecia porque eu era uma criança muito bem comportada e limpa. Mas tudo isto foi há muito tempo, tinha eu cinco anos de idade, pelo que alguns factos devem estar distorcidos.
A guerra havia acabado em Setembro, e as festas de Natal e Ano Novo de 1945 aproximavam-se. Nesse ano o Hotel começou a ser decorado com azevinho, bolas de vidro brancas e amarelas, bem como pequenas “árvores de natal” pelos cantos, iluminadas com luzinhas. Apesar de vivermos num país de disfarçada neutralidade, esse ano não podia deixar de ser especial…
Naquele ano, vestido de “pai natal” e com uma sineta badalando na mão, o meu pai subia e descia, chamando os hóspedes quando o elevador se esvaziava no rés-do-chão.
A aceitação da magia tornava-me possível acreditar que havia uma vida menos sombria do que a minha, mas não me permitia acreditar no “pai natal”… Dado que esse, já o disse, era o meu pai!
As aventuras sucedem aos aventureiros, as outras pessoas sofrem-nas – Foi esse o meu caso!…
Meu pai, lembro bem, tinha uma maneira de falar esquisita, e foi sempre dessa forma que me chamava estúpido. Um dia, ainda recordo, de alma muito magoada, disse a minha mãe: «-O pai diz que eu sou estúpido!». Coitada, respondeu como podia: «Oh! Não! Não diz nada disso.».O meu pai não se importava de ofender uma criança de tenra idade. De resto, naquela época, não existia grande divulgação sobre os complexos freudianos. Embora gostasse do meu pai, entendia que ele, com aquele seu horrível sotaque, se precipitava um pouco, o que o tornava por vezes um estranho.
Nessa noite pedi que me deixassem estar a pé até ao jantar, espécie de consoada que a gerência servia aos empregados de serviço, nessa fatigante noite. Fiquei acordado até chegar a meia-noite. Nesse ano ainda havia o relógio dourado no vestíbulo, onde eu ia de vez enquanto espreitar o aproximar da hora mágica. Pela meia-noite, a cozinheira levou-me pela mão a acenar as “boas noites” a meu pai, pois minha mãe encontrava-se nos andares de cima a trabalhar… Ele acenou-me adeus da porta do elevador, tocando a sineta de “pai natal”… Foi a última vez que o vi…
De manhã, quando acordei na cama do quarto de serviço do Hotel, tinha a cozinheira ao pé de mim. Olhei à volta, mas não vi minha mãe…
Naquela manhã de 25 de Dezembro de 1945, o elevador subiu e desceu várias vezes com o fato do “pai-natal” amarrotado no chão. Do meu pai não havia notícia. Num choro convulsivo que nunca imaginara ver, minha mãe levou-me para casa. O meu pai desapareceu sem deixar rastro…
Muitos anos depois, quando ainda havia gente minha conhecida a trabalhar no Hotel, tentei indagar qualquer coisa de positivo sobre o que havia sucedido… Parece que meu pai era alemão!

