
Vieira da Silva
Hier, seul le coeur faisait mouvement, en équilibre entre l’éperon du jour et la paroi de la nuit. Nous vivions, nous ne réfléchissions pas la vie. Elle se fût sentie à l’étroit dans l’ambition d’une idée. Un sceau jaloux était sur elle. Au soir où nous sommes, cette même vie est regardée par nous sans prénotion et sans ombre, trouée à ses limites, éparpillée au plus bas et au plus loin. La sensibilité intellectuelle s’est substituée à la sensibilité naturelle; mais le compas de l’esprit et les longues épées du coeur sont absents. C’est le signal du désastre.
L’oeuvre de Vieira da Silva surgit et l’aiguillon d’une douce force obstinée, inspirée, replace ce qu’il faut bien nommer l’art, dans le monde solidaire de la terre qui coule et de l’homme qui s’en effraie. Vieira da Silva tient serré dans sa main, parmi tant de mains ballantes, sans lacis, sans besoin, sans fermeté, quelque chose qui est à la fois lumière d’un sol et promesse d’une graine. Son sens du labyrinthe, sa magie des arêtes, invitent aussi bien à un retour aux montagnes gardiennes qu’à un agrandissement en ordre de la ville, siège du pouvoir. Nous ne sommes plus, dans cette oeuvre, pliés et passifs, nous sommes aux prises avec notre propre mystère, notre rougeur obscure, notre avidité, produisant pour le lendemain ce que demain attend.
René Char
in Alliés substantiels, Oeuvres Complètes, Pléiade, 1983, p.703.
(Tradução do texto de René Char sobre Vieira da Silva)
Ontem, só o coração se movia, equilibrando-se entre o esporão do dia e o muro da noite. Nós vivíamos, não refletíamos a vida que era sentida na estreiteza da ambição de uma idéia. Um lacre sigiloso a cobria. Na noite em que agora estamos, essa mesma vida é encarada por nós sem previsão e sem sombra, rasgada em seus limites, expandida para baixo e para longe. A sensibilidade intelectual tomou o lugar da sensibilidade natural; mas o compasso do espírito e as longas espadas do coração estão ausentes. É o sinal do desastre.
A obra de Vieira da Silva surgiu e o aguilhão de uma suave força obstinada, inspirada, reinstala o que é preciso chamar de arte no mundo solidário da terra, que corre, e do homem, que se espanta. Vieira da Silva mantém segura em sua mão, entre tantas mãos pendentes, sem rede, sem vontade, sem firmeza, alguma coisa que é ao mesmo tempo a luz da terra e a promessa de uma semente. Seu sentido do labirinto, sua magia das arestas, convidam tanto para um retorno às montanhas guardiãs quanto para um engrandecimento da ordem da cidade, sede do poder. Nessa obra, não estamos mais curvados e passivos, estamos às voltas com o nosso próprio mistério, com o nosso rubor obscuro, com a nossa avidez, produzindo para o dia seguinte o que o amanhã espera.

