EDITORIAL – 2015 – que perspectivas?

Imagem1Envia-nos o amigo, argonauta e pintor, Vasco de Castro, um cartoon de «boas-festas», sui generis, como as obras do Vasco costumam ser.«ACREDITO NO PAI NATAL E NA JUSTIÇA DESTE  PAÍS UÁUUUUUUUU!», desmentindo com o prolongado uivo a confiança em dois míticos pressupostos  – o «pai natal», invenção da Coca-Cola numa operação de marketing dos tempos da «grande depressão» de 1929,  e uma Justiça cercada por forças que pervertem a sua proclamada pureza e isenção. Uma mentira publicitária, colorindo tempos de penúria, e uma mentira em que um dos pilares da democracia portuguesa se transforma, mercê de pressões exteriores, da força dos media e da própria inércia de um sistema corrupto por natureza.

Há tempos atrás, num editorial, recordámos  o título de uma peça teatral de Alfonso Paso, «Vamos contar mentiras», comédia que em Portugal foi interpretada por Raul Solnado – a acção decorre na noite de Natal – um casal convida um amigo para a ceia. A anfitriã é uma mentirosa compulsiva e sendo a mentira coisa para ela tão natural como respirar, mente convencida de que está a dizer a verdade…  Tal como Júlia, a mentirosa criada por Paso, a ceia de Natal dos portugueses, vai ser embalada por mentiras – provenientes dos mais diversos quadrantes. Porque, e recorremos novamente ao teatro: desta vez é o título de uma peça de Luigi Pirandelo que nos ajuda – «Para cada um sua verdade» – partidos, movimentos de opinião, centrais sindicais – proclamam as suas verdades. «Verdades» dirigidas a um povo dividido em segmentos sociais e em convicções políticas cujos interesses e conceitos são diferentes e, quase sempre, opostos. O que é verdade para uns é mentira para outros.

O que torna esta comédia num drama é que grande maioria dos onze milhões de actores são os convidados de meia-dúzia de mentirosos. Convidados que, diga-se, pagam a ceia aos aldrabões. Voltando ao cartoon do Vasco – o uivo que remata a legenda traz à memória, não uma terceira peça, mas um tango de Discépolo interpretado por Carlos Gardel. No diálogo que antecede o tango, Carlos fala nos 40 anos que um homem esperou até desesperar. De 1974 a 2014 temos escutado as «verdades» que nos têm servido – quando é que começamos a uivar?

1 Comment

  1. A proclamada pureza da nossa Justiça nunca existiu, porquanto, na própria Constituição – que matreiros e não menos analfabetos os que a fizeram – já está conspurcada intencionalmente pelas demais funções do Poder de Estado. Bem podem falar dos ensinamentos do Barão de Montesqieu que, com isso, só mostram quanta ignomínia é destilada por quem manda. CLV

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