Meu caro amigo, desejo-lhe sinceramente um bom Natal. Escrevo-lhe sentado à minha secretária, no meu quarto. Jantei já há mais de uma hora, e a Heloísa está na sala dormindo profundamente em frente à televisão, que tem o canal quatro e um quarto,a dar uma nova telenovela intitulada, salvo erro, O Pecador e a Santa (ou será O Santo e a Meretriz? não me lembro). Já agora, antes que pergunte, deixe-me explicar-lhe que o canal quatro e um quarto é um canal que dá muitos filmes e telenovelas, e chamam-lhe assim, aqui na rua, desde que passou o Oito e Meio, já lá vão uns anos. O filme foi visto por muita gente, não sei porquê, mas acharam-no tão mau, que houve discussões e protestos no café contra ele, e quiseram mesmo fazer um abaixo-assinado para mandar àdirecção do canal, uns senhores que não faço ideia quem sejam, nem onde moram.Quando passaram o filme, eu quis fazer companhia à Heloísa, que insistia em o ver, mas confesso que adormeci assim que começou. Também já seria quase meia noite. Parece que este género de filmes só passam depois das telenovelas, se calhar para não lhes tirar a freguesia. Eu por mim, como adormeço tanto com uns como com as outras… Do filme, que ouvi gabar muito, no café e mesmo na faculdade, só me lembro de acordar e ver um senhor, cujo papel parece que era interpretado pelo Mastroianni (desculpe se escrevi mal o nome), um actor muito apreciado pelas senhoras, a fazer uma genuflexão diante de um padre. Deve ser um filme religioso. O facto é que ninguém gostou. E a D. Gertrudes Alcoforado começou a chamar ao canal quatro e um quarto, porque ser a metade de oito e meio, e ter passado um filme tão comprido e chato. Assim mereceu ser reduzido a metade do filme, um filme que não presta. E na rua todos lhe chamam assim. Não me peça para explicar, porque não sei. Mas continuam a ver o canal, os filmes e as telenovelas, e outros programas muito esquisitos que ele passa, em que chegam a prender pessoas numa casa, e a obrigá-las a fazer uma data de disparates. Eu para esses nem olho.
Desculpe ter-me desviado do assunto. O outro dia pareceu-me inquieto sobre a maneira como eu vou passar o Natal. Obrigado pelo seu cuidado, mas espero estar muito sossegado. Está preocupado por a Maria da Luz ter ido á terra ver os pais, eu confesso que não estou nada. Já falei com ela duas vezes ao telefone, disse-me que está muito bem, mas com saudades minhas. E que temos muito que estudar. Volta na próxima segunda-feira, e vamos passar o fim de ano aqui em casa, com a minha mãe. Como vê, não há perigo de recaída. Confesso que não percebo bem o que quer dizer com isso. Será que acha que estou doente?
Amanhã, vou às compras com a minha mãe. Ela anda muito mais contente do que há um atrás. Deve ser por me ver estudar mais e andar com a Maria da Luz. Continuo a achar estranho ela ter embirrado tanto com a Natália, e agora aceitar tão bem a minha colega. Talvez seja por eu lhe ter dito na altura que queria casar com a Natália. Sobre a Maria da Luz, nunca lhe disse nada disso. E confesso que até à data nunca pensei em casar com a Maria da Luz. Aliás, creio já lhe ter referido as dúvidas que tenho a esse respeito.
A Heloísa pretende fazer bacalhau para a noite de Natal. Vai ser muito bom, que ela sabe fazê-lo optimamente. E imagine que já convidou a D. Henriqueta para estar cá connosco. É verdade que já não é a primeira vez. Desde que morreu o sr. Norberto, já lá vão talvez quatro anos, que temos passado o Natal com ela, e com a D. Generosa, a irmã. Houve mesmo um ano em que fizemos a festa lá na pensão. Na companhia de duas das raparigas que lá estavam na altura.
Este ano não sei ainda se a D. Generosa vem estar connosco este ano. Mas já percebi que vamos ter a companhia da Maria Antónia. O que não deixa de me preocupar um pouco. A Maria da Luz não faz ideia de quem é a Maria Antónia. E como vai ser no Ano Novo? Será que se vão encontrar as duas? Será por ter pensado nessa possibilidade que o meu amigo teme que eu tenha uma recaída? Eu não percebo bem a sua ideia, mas realmente… sinto-me preocupado.

