ROBESPIERRE CONTRA SUPER MÁRIO[1] – O JOGO VÍDEO, ESTADO ÚLTIMO DO MANUAL DE HISTÓRIA – por JÉRÔME LEROY

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Robespierre contra Super Mário[1] – o jogo vídeo, estado último do manual de história

 

Jérôme Leroy, Robespierre contre Super Mario – Le jeu vidéo, stade ultime du manuel d’histoire

Revista Causeur , 27 de Novembro de 2014.

Palavras chave :  Assassin’s Creed, revolução francesa,  Robespierre

A execução de RobespierreImagem:  A execução de Robespierre  (wikicommons)

 

Então, se compreendemos bem, o personagem Robespierre e, de  passagem,  os  soldados do Ano II que, todos eles, desculpem-me um pouco, salvaram  pelas armas o que é hoje a nossa Nação, são atacados num jogo vídeo do nome de Assassin’ s Creed. Somos  bastante nulos em jogos vídeo  e mesmo completamente estrangeiros  a este universo. Acabamos de ver no jornal Le Monde  que o jogador de jogos vídeo tem  em média 31 anos, é  homem e está desempregado. Não sabemos bem  porquê, mas este tipo de retrato robô não nos dá muita vontade de nos interessarmos  um pouco mais  por este  universo. Mas sente-se, ao ler isto,  o solteiro mal vestido e sujo com um ar de autista, um tipo de personagem de Simenon dos anos dois mil e que  está à beira de  naufragar no assassinato em série ou de se  ir comprometer  na Jihad para ver como é que se faz para degolar verdadeiramente (IRL como dizem estes novos zombies) e já não está atrás  de  um ecrã a brincar aos espasmos onanistas, com uma alavanca cheia de botões.

Isto não impede, pensou-se também compreender, que o jogo vídeo seja, devido à abundância de praticantes, um desafio tão  comercial como  ideológico. Não se pode por este enviesamento  apenas estar a ganhar  dinheiro mas também, de maneira muito à imagem do que defendia Gramsci,  criar ou acompanhar-se de  representações dominantes para as fazer  passar como coisas que são correntes. Não têm conta os jogos onde se desfaz e se arrasa  o maldoso do momento, Castro, Chavez, Ben Laden, resumidamente, toda e qualquer  gama que funcione,  sem estar a fazer demasiado detalhe, desde o islamita barbudo à gentalha neo-comunista. Neste caso preciso,  trata-se por conseguinte de fazer passar Robespierre por  um monstro. Finalmente, isto andará mais depressa que o Furet, historiador no seu tempo financiado pelas universidades americanas com estas a serem financiadas por  fundos abundantes dos grupos de pressão ideológica neoliberais  e anticomunistas e que fez muito para destruir até ao desejo de alterar o mais pequeno pormenor das coisas no nosso mundo porque isso  conduziria necessariamente ao Terror, aos Goulags, aos campos da morte. Não é complicado, pede-se  um aumento do salário mínimo, pede-se  a salvaguarda dos serviços públicos, e passa-se a ser imediatamente um  khmer vermelho…

Observar-se-á  que de Robespierre temos todos a cabeça cheia, como diriam os jogadores de vídeos, nestes últimos tempos. No  ano passado, era uma máscara de Incorruptível reconstituída por um suposto especialista da coisa e por um médico legista que tivesse andado a fazer o seu estágio no circo Pinder. Como por acaso, Robespierre aí aparecia  com ar marcadamente monstruoso, porque é bem conhecido, quando se é maldoso, tem-se inclusive mau-falar, de acordo com a filosofia política decididamente muito elaborada dessas pessoas.

Então recordemos, simplesmente, que sobre Robespierre não se é obrigado a acreditar nos liberais e nos reaccionários,  recordemos que o Terror em  Paris fez menos mortes que a Semana Sangrenta contra os Communards e que Robespierre é uma das mais bonitas vozes humanas sobre a emancipação. Mas sem dúvida, na  época em que um  Gattaz[2] quereria que a França saísse  da Organização Internacional do Trabalho, o organismo da ONU sobre as questões sociais, porque encontra ainda aí demasiados constrangimentos nas recomendações produzidas por este organismo da ONU e que, no entanto, são mínimas, na época  em que  Macron quereria congelar os salários sobre três anos e desfazer a semana de  35 horas  que à força de  sucessivas modificações acabará por se assemelhar a um contorcionista num circo, nessa época, por conseguinte, é difícil aceitar as palavras daquele que ousava dizer: “O povo pede apenas o necessário, quer apenas justiça e tranquilidade; os ricos tudo pretendem, tudo  querem invadir, tudo querem dominar. Os abusos são a obra e o domínio do ricos, eles são as calamidades do povo: o interesse do povo é o interesse geral, o dos ricos é o interesse particular”.

E, depois,  não há apenas Furet na vida. Veja-se pelo lado de  Slavoj Zizek que tenta pensar Robespierre e o Terror como um momento numa história que é simultaneamente  muito mais complexa e mais clara dado que é também  a história do eterno desejo de igualdade entre os homens e escutemos,  precisamente, à maneira de conclusão, o que nos diz Zizek, todo ele bem mais credível  que SuperMario sobre esta questão, em Robespierre, entre virtude e Terror (edições Stcok) :  “A minha tese é que: há situações onde a democracia não funciona, onde esta perde a sua substância, onde é necessário reinventar modalidades de mobilização popular. O Terror não se resume a Robespierre. Havia então uma agitação popular, encarnada por figuras ainda mais radicais, como Babeuf ou Hébert. É necessário recordar que se cortaram muitas mais cabeças  depois da  morte de Robespierre que antes – mas ele tinha cortado a cabeça dos ricos. ”

Que saibamos,  nenhuma marca de jogos  de vídeo se  propôs retomar o cenário de Zizek.  E é pena:  dado que o jogo vídeo faz doravante o papel de manual de história para as pessoas de hoje  que não sabem ou não querem  pensar, poder-se-ia equilibrar a balança.

Jérôme Leroy,   Revista CauseurRobespierre contre Super Mario- Le jeu vidéo, stade ultime du manuel d’histoire, 27 de Novembro de 2014. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/robespierre-contre-super-mario-30363.html

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[1] Super Mário tanto se pode referir ao Mário Monti, um homem de Bruxelas e algumas coisas mais, que foi nomeado senador para a vida sem nunca ter sido eleito para coisa nenhuma, um homem de Goldman Sachs e o ideólogo neoliberal de referência de Bruxelas e reitor da Universidade Bucconi de Milão,  ou referir-se a Mario Draghi, o homem mais poderoso da Europa, um homem da Goldman Sachs  e também, como não  podia deixar de ser, um homem de outras coisas mais, que não a Democracia, como a estas duas personagens em conjunto.

[2] Pierre Gattaz, Presidente do MEDEF, a organização do Patronato francês.

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